O Poder e a verdade sobre Eclesiastes
02/07/2026, 15:03:47O dinheiro, a influência e a fama seduzem multidões, mas jamais substituem a amizade verdadeira, a humildade e o amor sincero., assim como a ascensão ao poder costuma atrair admiradores; a sua perda revela quem realmente permaneceu ao lado do poderoso.

A relação entre o poder e a vida retratada em Eclesiastes resume toda uma existência: a percepção da ilusão das vaidades e a inevitável conclusão de que tudo tem um fim. O poder atrai grandes interesses, que frequentemente se apresentam sob a forma de amizade e admiração. Transforma seu detentor em uma liderança a ser seguida, quando, na realidade, muitas vezes é apenas alguém a ser temido.
É admirado enquanto detém o poder. Sente-se "amado" pelos seus olhos enganados, incapazes de perceber as verdadeiras intenções daqueles que o cercam. São pessoas que frequentam suas grandes festas, encantam-se com recepções pomposas e deslumbram-se com os cerimoniais impecáveis, confundindo ostentação com afeição.
Encantado por sentir-se rei, em plena demonstração de poder, faz com que todos os presentes — homens e mulheres — sintam-se protegidos por sua poderosa companhia. Exala uma aparente nobreza sustentada pela riqueza adquirida ou herdada. Entretanto, continua sendo um homem profundamente solitário tão logo seus convidados retornem às suas vidas comuns.
Comparando-se aos demais mortais, julga-se sempre superior e, por isso, comporta-se como tal. Não consegue construir amizades verdadeiras, embora tente fazê-lo. O medo, escondido por trás da fingida admiração daqueles que o visitam, impede qualquer sentimento de reciprocidade. O superior raramente demonstra empatia, apesar da simpatia que exibe de forma quase irônica.
Vive os mais altos picos da glória sem perceber que ela é frágil, vulnerável ao tempo e às circunstâncias. Se seu poder está no dinheiro, este pode desaparecer com os anos; se repousa na força física, a debilidade inevitável da idade lhe retira o encanto da ostentação. O poder é efêmero, transitório e, muitas vezes, causador das dores alheias.
Das mulheres recebe atenção e companhia em razão de suas posses. No íntimo, porém, sabe que basta dirigir-lhes um olhar mais profundo para perceber que não encontrará, em seus corações, o mais puro sentimento de amor: aquele que permanece mesmo quando desaparecem as riquezas materiais. E esse tempo, inevitavelmente, chega.
Quando se vê despido da riqueza e dos bens materiais, percebe-se como um monge fora do mosteiro, sem ninguém que lhe sirva o vinho ou o pão. É nesse momento sagrado da aprendizagem pela perda que o outrora "mais feliz dos homens", aquele que desfrutou do auge do poder, descobre que lhe resta apenas a solidão reservada aos abandonados. O homem que confiou no mais frágil dos poderes — o dinheiro e a influência — experimenta, enfim, a carência absoluta de companhia verdadeira. Aqueles que antes o cercavam serviam-se dele; jamais serviram a ele.
As noites vestem-se de escuridão. O silêncio substitui a música, os gritos de alegria e a euforia. A secura toma o lugar das taças outrora transbordantes. Resta apenas a maior lição da vida, anunciada há milênios por Eclesiastes: nada somos sem humildade, e nenhum tesouro vale mais do que os afetos sinceros que o ouro jamais será capaz de comprar.
