Novo surto de Ebola na África revela desafios de 2026

Novo surto de Ebola na África revela desafios de 2026

Entenda o surto de Ebola

Após dez anos do que foi considerado o surto de Ebola mais grave já registrado, a doença novamente avança com rapidez, agora na República Democrática do Congo. Em junho de 2016, a epidemia da África Ocidental foi declarada encerrada com 11.325 mortes e sete países com registros de contágio.

Até o momento há, oficialmente, 84 casos confirmados da doença (82 na República Democrática do Congo e dois em Uganda), mas 750 casos são investigados e foram registradas 177 mortes suspeitas por Ebola. Oito óbitos pela doença foram confirmados.

O novo surto – dessa vez na África Central – mostra que, apesar da experiência global no enfrentamento da doença, a iminência de novos surtos é realidade e o cenário segue desafiador.

Fatores que contribuem para o surto

Segundo especialistas, dois fatores principais contribuíram para o novo surto, que se apresentam como obstáculos para o manejo da doença:

  • O surto ser causado pela variante Bundibugyo, menos detectável pelos testes e sem vacina ou tratamento aprovados.
  • O contexto humanitário mais complexo, de guerra civil e de grandes deslocamentos populacionais.

Nesse contexto, a letalidade da nova variante é algo bastante preocupante, analisa Kleber Luz, médico infectologista da UFRN e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a elaboração de diretrizes estratégicas para prevenção e controle das arboviroses.

Ele alerta sobre a letalidade da variante, que parece ser ainda maior do que as anteriores. "Esse surto de 2026 é um surto que afetou muitas pessoas e também está presente em mais de um país. Isso preocupa, a impressão que se tem é que se trata de um vírus de maior transmissibilidade", analisa o infectologista.

Avanços e desafios no enfrentamento da doença

O enfrentamento de um grande surto de qualquer doença deixa lições sobre como lidar com o vírus. Para Rachel Soeiro, médica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras, o principal ensinamento desse período é que a resposta ao Ebola deve se basear em um conjunto de ações, que continuam sendo aplicadas atualmente.

A especialista destaca as principais medidas que perduram desde o último surto:

  • Isolamento e tratamento dos pacientes.
  • Rastreamento e monitoramento de contatos.
  • Ações de engajamento comunitário.
  • Busca ativa de casos.
  • Fortalecimento das estruturas de saúde locais.
  • Sepultamentos seguros.

A testagem, aprendida em 2016, foi intensificada neste ano, e mais de 90% dos casos confirmados estavam sendo monitorados.

Dificuldades no controle dos casos

Ainda que as equipes estejam mais preparadas, o enfrentamento da doença enfrenta diversas dificuldades. O surto atual é causado pela variante Bundibugyo, que permanece sendo rara. Esse é apenas o terceiro surto registrado com esse vírus, após episódios anteriores.

"O principal fator que diferencia este vírus é que vacinas e tratamentos que podem ser usados com sucesso contra as variantes mais comuns não funcionam ou têm eficácia muito pequena contra ele", explica Soeiro.

Influências culturais e religiosas

A tradição de submeter os mortos a rituais de lavagem, com contato direto de familiares com o cadáver, complica o combate ao Ebola. "Esse contato que a esposa tem com o marido que morreu de Ebola, por exemplo. Ela já teve contato com os vômitos, com as fezes, com o sangue, e passa a ser uma pessoa de alto risco para o desenvolvimento da doença", analisa Luz.

Intervir nesses procedimentos muitas vezes é complexo, dado que se trata de uma bagagem cultural de séculos. Raquel Soeiro reafirma que é essencial a construção de confiança entre os agentes de saúde, as ONGs e as comunidades locais. "A realização de funerais dignos e seguros continua sendo um fator muito importante para evitar a expansão da doença", diz.

Preocupação a nível internacional

A OMS classificou a situação na República Democrática do Congo como uma "emergência de saúde internacional". A organização afirma que a maior apreensão se dá pela possibilidade de propagação internacional devido à intensa mobilidade populacional. Rachel ressalta que são necessárias ações coordenadas para combater o surto.

A tendência é que o número de casos e mortes siga aumentando à medida que mais insumos e profissionais de saúde cheguem ao local.

"Como o surto ainda não acabou, é difícil traçar um paralelo, mas a cepa atual parece ter uma letalidade maior e está presente em vários locais ao mesmo tempo, diferentemente de 2016. A situação epidemiológica se mostra ainda mais grave", prevê Kleber.