Traficantes no Rio: Investigações Revelam 'Senhores Feudais'

Traficantes no Rio: Investigações Revelam 'Senhores Feudais'

Traficantes no Rio: Uma Análise Aprofundada

O comentário do delegado Flávio Britto foi feito durante um seminário sobre Segurança Pública com presença de autoridades municipais, estaduais e do governo federal na FGV.

O Comando Vermelho espalha seus domínios pelo Estado do Rio, onde pichações com as iniciais da facção revelam sua presença em Paraty, na Costa Verde.

No diagnóstico sobre o crime organizado, o delegado Flávio Britto, subsecretário de Inteligência de Estado da Secretaria de Polícia Civil (Sepol/RJ), afirmou que o Comando Vermelho (CV) incorporou a forma de atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC). Já o Terceiro Comando Puro (TCP), por sua vez, tem seguido os passos do CV. Ele ainda definiu os traficantes como novos "senhores feudais", durante o seminário sobre Segurança Pública realizado na FGV, em Botafogo, Zona Sul do Rio.

O encontro reuniu autoridades municipais, estaduais e federais, onde foi comum a percepção de que, no universo do crime organizado, o tráfico de drogas perde cada vez mais importância para a exploração comercial sofisticada em diversos setores.

— Já detectamos a exploração de combustível por facções no Rio de Janeiro. Porém, em geral, é fragmentada, não institucionalizada como o PCC. O CV busca ser o PCC do ponto de vista financeiro, enquanto o TCP pretende se igualar ao CV em termos organizacionais. Estamos caminhando a passos largos para um processo de capitalização semelhante ao do México. Se o Comando Vermelho continuar sua expansão nacional na velocidade atual, tenho certeza de que, em 10 a 15 anos, eles olharão para São Paulo — observou Britto. — Quando o Comando Vermelho, com seu poderio de armamento, voltar suas atenções para São Paulo, o PCC enfrentará dificuldades.

O delegado Britto ainda avaliou o contexto atual como sendo de fragmentação da soberania do estado e um comprometimento da democracia.

— Nem chamo mais os criminosos de traficantes ou narcotraficantes. Para mim, eles são senhores feudais do crime. Eles sabem que são donos do território e protegem-no para que se torne instransponível, sob as bandeiras do CV ou do TCP, por exemplo. Dentro desse território, existem diversas atividades econômicas que geram lucro e receitas operando em prol de êxitos do sistema — destacou.

O delegado também abordou um fenômeno observado nos últimos cinco anos: a importação de líderes criminosos de outros estados, como Bahia e Ceará.

— Isso acontece, sobretudo, devido à interação nos presídios federais. Rocinha e os complexos do Alemão e da Penha se tornaram grandes bunkers criminosos. Temos mais dois se formando: um do PCC, conhecido como Complexo de Israel, e um do CV, o Complexo do Salgueiro. As facções aqui, especialmente o Comando Vermelho, não fazem isso de graça. Ou obtêm acesso às rotas que os criminosos têm em seus estados ou começam a envolvê-los no tráfego local, com o objetivo de implantar a mesma lógica criminosa que já existe no Rio — analisou. — Há comunidades no Rio onde o tráfico já foi terceirizado e não é mais operado por quem realmente pertence ao morro. Na Rocinha, boa parte do tráfico é comandada por homens do Ceará.

O coronel Ubiratan Angelo, ex-comandante-geral da Polícia Militar do Rio, também participou do seminário e ressaltou a que considera uma "negociação" entre PCC e Comando Vermelho:

— O Comando Vermelho aprendeu com o PCC e com a milícia a utilizar o território para gerar lucro. A atividade do PCC já é empresarial há bastante tempo. O grande investimento da facção em gasolina comprova isso. Hoje, o que temos no Rio é, na verdade, a utilização do território conflagrado para fins econômicos.

O procurador do estado há 25 anos, nomeado presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) pelo governador em exercício Ricardo Couto, Rafael Rolim, compartilhou a mesma linha de raciocínio ao abordar o tema. Ele destacou que a segurança pública é “o maior problema” no Rio.

— Observamos uma sofisticação muito grande do crime organizado, através de empresas legalmente constituídas e da infiltração na estrutura do poder público — afirmou.

Rolim assumiu o cargo em um cenário de devassa promovida pelo desembargador Ricardo Couto, que, desde que se tornou governador interino, tem promovido exonerações em cargos de comissão que tinham indicações do grupo político que estava no poder.

O presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), Couto, assumiu a governança interina em 23 de março, após a renúncia do ex-governador para concorrer ao Senado. Desde então, mais de duas mil exonerações foram realizadas em órgãos públicos.

Na Cedae, Rafael Rolim substituiu Aguinaldo Ballon, cuja gestão anterior alocou R$ 200 milhões no banco Master.

— Há 40 dias, fui convidado a ocupar o cargo, com a missão difícil, mas fundamental de enfrentar uma situação de total falência moral do estado, que se normalizou como "é assim, sempre foi assim e sempre será assim." Agora, estamos tentando transmitir à sociedade fluminense e brasileira que é possível, sim, enfrentar o crime organizado no Rio. A saída não passa pelo Aeroporto do Galeão, mas pela conscientização sobre o diagnóstico que possibilite que cada um faça sua parte para lidar com esse problema — concluiu o procurador.

O ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, também fez intervenções durante o seminário e alertou para a infiltração do crime no setor empresarial, especialmente em ramos como os fundos de investimento.

— A única maneira de combater isso é permanecendo vigilantes e suprindo déficits de regulamentação no mercado financeiro. Devemos estabelecer regras que inibam essa permissividade, que não se vê em outros países. É imperativo unir dados e agir legalmente em resposta a ilegalidades, como bloqueios — disse o ministro.

No evento, Wellington César Lima e Silva abordou as novas medidas do Governo Federal para a Segurança Pública e anunciou a constituição de escritórios contra o crime organizado por todo o país, incluindo o Rio de Janeiro. Ele se reuniu com o governador em exercício para tratar desse assunto.

— Estamos pesquisando um local no Rio para implantar esse sistema rapidamente. Essa medida proporcionará agilidade e proximidade entre as forças policiais. Aliado a um mínimo de duas operações nacionais de asfixia financeira mensais, isso resultará em efeitos imediatos e contínuos.