Bactéria Fusobacterium é encontrada em 64% das pacientes com endometriose
22/05/2026, 08:16:17
Estudo sinaliza novos caminhos terapêuticos
O estudo sugere que eliminar a bactéria pode ser uma estratégia terapêutica no futuro. A Fusobacterium nucleatum vive naturalmente na boca, mas pode disseminar-se para outros locais do corpo. Quase dois terços das mulheres com endometriose analisadas em um estudo apresentaram a bactéria Fusobacterium no revestimento uterino. Os pesquisadores identificaram a presença do microrganismo em 64% das pacientes com a doença, contra menos de 10% das mulheres sem endometriose. O trabalho, conduzido por pesquisadores da faculdade de medicina de Nagoya, no Japão, e publicado na revista científica "Science Translational Medicine", também mostrou que o tratamento com antibióticos reduziu lesões da doença em camundongos. Segundo os autores, a infecção bacteriana parece estimular um ambiente inflamatório no endométrio capaz de favorecer o desenvolvimento da endometriose. O estudo sugere que eliminar a bactéria pode representar uma possível estratégia terapêutica no futuro.
A infiltração bacteriana foi identificada em:
- 64,3% dos tecidos endometriais de pacientes com endometriose;
- 52,4% das lesões endometrióticas ovarianas;
- apenas 7,1% das mulheres sem a doença.
A médica acrescenta que algumas condições favorecem a presença dela no endométrio: endometriose, complicações obstétricas e infecções intrauterinas. E a presença da bactéria mesmo fora da cavidade oral não significa necessariamente infecção ativa. Pode haver colonização assintomática, translocação sem infecção ativa e colonização patológica subclínica (como estar em associação com tumores retais e endometriose, sem provocar sintomas de infecção aguda). "O uso prolongado de antibióticos representa um risco importante para que esta bactéria se comporte como um patógeno oportunista através de mecanismos que alteram tanto a bactéria quanto o ecossistema microbiano", explica.
Os pesquisadores também identificaram aumento da proteína TAGLN nos tecidos de mulheres com endometriose. A TAGLN é associada aos miofibroblastos — células envolvidas em processos de fibrose, cicatrização e inflamação crônica. A expressão da proteína foi:
- menor em mulheres sem endometriose;
- intermediária no endométrio de pacientes com a doença;
- mais elevada nas lesões ovarianas.
Inflamação como peça central
O estudo mostrou que a infecção por Fusobacterium ativa a via de sinalização do TGF-β1, molécula associada à inflamação e à fibrose. Segundo os pesquisadores, essa ativação faz com que fibroblastos "quiescentes" se transformem em miofibroblastos positivos para TAGLN. Além disso, as células passaram a produzir maiores quantidades de IL-6, uma citocina inflamatória ligada ao crescimento celular. Os autores também observaram aumento de macrófagos do tipo M2 — células imunológicas produtoras de TGF-β1 — nos tecidos das pacientes com endometriose. Em laboratório, até bactérias mortas de Fusobacterium nucleatum foram capazes de estimular a produção de TGF-β1.
Os pesquisadores testaram o efeito da bactéria em um modelo experimental com camundongos. Os animais infectados com Fusobacterium nucleatum apresentaram:
- aumento do número de lesões endometrióticas;
- lesões maiores e mais pesadas;
- maior infiltração inflamatória;
- aumento de células TAGLN-positivas.
- eliminação da bactéria;
- redução da inflamação;
- diminuição da expressão de TAGLN;
- redução do número e do peso das lesões.
Os autores afirmam que os dados ajudam a ampliar a compreensão sobre os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da endometriose. Segundo eles, a infecção por Fusobacterium nucleatum pode criar um ambiente inflamatório favorável à progressão da doença e estimular alterações celulares associadas à formação das lesões. O estudo conclui que estratégias voltadas à eliminação da bactéria podem representar uma possível abordagem terapêutica para endometriose no futuro.
O que é endometriose
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora da cavidade uterina. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode causar dor pélvica intensa, alterações menstruais e infertilidade. Como os sintomas variam e o diagnóstico muitas vezes depende de cirurgia, muitas pacientes levam anos até receber a confirmação da doença. Por isso, pesquisas que buscam marcadores menos invasivos da doença são consideradas uma das principais frentes da investigação científica sobre endometriose.
