Retatrutida: nova caneta emagrecedora traz avanços significativos

Retatrutida: nova caneta emagrecedora traz avanços significativos

Medicamento experimental da fabricante do Mounjaro ainda não foi submetido para aprovação das agências reguladoras e, portanto, não pode ser comercializado

A retatrutida, nova caneta emagrecedora da Eli Lilly, mostrou resultados promissores em estudos, com 45,3% dos pacientes atingindo uma perda de peso de 30% ou mais, similar à cirurgia bariátrica. Ainda em fase experimental e sem aprovação regulatória, a retatrutida é um triplo agonista que imita hormônios como GLP-1, GIP e glucagon, oferecendo uma abordagem inovadora no tratamento da obesidade.

A retatrutida, um novo medicamento da classe de fármacos para obesidade conhecida como \"canetas emagrecedoras\", levou 45,3% dos pacientes que receberam a dose mais alta em um novo estudo a alcançarem uma redução de 30% ou mais do peso, nível associado à cirurgia bariátrica.

A molécula foi desenvolvida pela Eli Lilly, mesma farmacêutica do Mounjaro, e ainda é considerada experimental. Isso porque os estudos de fase três, a última dos testes clínicos e que comprova eficácia e segurança, ainda estão sendo publicados, e o remédio não foi submetido para análise das agências reguladoras. Somente após aprovação, será permitida a venda.

Os novos dados, divulgados nesta quinta-feira pela Eli Lilly, são referentes ao estudo TRIUMPH-1, um dos testes de fase três conduzidos pela farmacêutica que englobou 2.239 participantes com sobrepeso e uma comorbidade associada ao peso ou obesidade. Os voluntários foram divididos em quatro grupos e acompanhados por 80 semanas, cerca de um ano e meio.

Três grupos receberam doses diferentes do medicamento, injetado semanalmente: de 4 mg, de 9 mg e a mais alta, de 12 mg. O quarto grupo recebeu um placebo para comparação. Os participantes foram alocados aleatoriamente e não sabiam se estavam recebendo o remédio ou placebo, para evitar uma influência sobre os resultados.

Após o período de 80 semanas, o grupo que recebeu a dose de 4 mg perdeu, em média, 19% do peso, o que no estudo foi o equivalente a 21,4 kg. Já o de 9 mg viu o número na balança cair 25,9%, o que representou 29,2 kg. O da dosagem mais alta, de 12 mg, perdeu 28,3% do peso, 31,9 kg. Para comparação, a dose mais alta do Mounjaro, de 15 mg, proporciona uma queda de, em média, 25,3% após 88 semanas, segundo o estudo SURMOUNT-4.

\"Da dose de 4 mg, alcançando quase 20% de perda de peso com um passo de escalonamento (ampliação da dose inicial de 2 mg para a final), até a dose de 12 mg, que proporcionou um nível de perda de peso há muito associado à cirurgia bariátrica, a retatrutida oferece o potencial de uma abordagem centrada no paciente para a obesidade\", afirma Kenneth Custer, vice-presidente executivo e presidente da Lilly Cardiometabolic Health, em nota.

A retatrutida é considerada uma nova geração dos fármacos antiobesidade por ter mais alvos do que os anteriores. A molécula faz parte dos análogos de GLP-1, classe de medicamentos que simula a ação do hormônio GLP-1 no corpo. No pâncreas, essa interação estimula a produção de insulina. Já no estômago, reduz a velocidade da digestão da comida e, no cérebro, ativa a sensação de saciedade.

Um dos remédios mais famosos desse grupo é a semaglutida, do Ozempic e do Wegovy, desenvolvido pela farmacêutica Novo Nordisk. Em seguida, veio a tirzepatida, do Mounjaro, que tinha o diferencial de ser um duplo análogo, simulando não só o GLP-1, como também um outro hormônio intestinal chamado GIP.

Agora, a retatrutida é uma geração ainda mais nova por ser um triplo agonista: além do GLP-1 e do GIP, simula também o hormônio glucagon. Com isso, o efeito na perda de peso é maior do que o de seus antecessores. 45,3% dos participantes que receberam a maior dose atingiram perdas de 30% ou mais, equivalente a uma cirurgia bariátrica, e 27,2% chegaram a uma redução de 35% ou mais do peso após as 80 semanas.

Além disso, entre o grupo que recebeu a maior dose no novo estudo, 65,3% alcançaram um índice de massa corporal (IMC) inferior a 30 no fim dos testes, ou seja, saíram da classificação de obesidade. Incluindo 37,5% que, no início do estudo, eram enquadrados como obesidade classe 3, com um IMC maior que 40.

Os pesquisadores conduziram ainda uma extensão do estudo por até 104 semanas com aqueles que tinham um IMC maior ou igual a 35. Os participantes que continuaram recebendo a retatrutida 12 mg alcançaram uma média de redução de 30,3% do peso, o equivalente a 38,5 kg.

O tratamento com o remédio também promoveu melhorias em outras medidas, como circunferência da cintura, colesterol não-HDL, triglicerídeos, pressão arterial sistólica e proteína C reativa de alta sensibilidade (hsCRP). Os resultados do estudo serão apresentados na 86ª Sessão Científica Anual da Associação Americana de Diabetes e publicados em revista científica revisada por pares.

\"A obesidade é uma doença crônica, e as pessoas que vivem com obesidade merecem opções de tratamento que correspondam à biologia complexa de sua doença neurometabólica. Foi impressionante ver que todas as doses de retatrutida resultaram em redução de peso clinicamente significativa para quase todos os participantes\", diz Ania Jastreboff, professora da Escola de Medicina da Universidade de Yale, onde dirige o Centro de Pesquisa para Obesidade de Yale, e principal pesquisadora do estudo, em nota.

O medicamento também foi considerado seguro, com efeitos adversos semelhantes aos de outras canetas emagrecedoras. Os mais comuns foram náuseas, que chegaram a acometer 42,4% dos tratados com a maior dose, e diarreia (32%). Participantes também relataram constipação (26,1%) e vômitos (25,3%). Outros eventos adversos frequentes foram infecções e disestesia (sensações incomuns ao toque, como formigamento e queimação), normalmente leves a moderados e passageiros.