A grandeza de Noca da Portela em foco

A grandeza de Noca da Portela em foco

A grandeza de Noca da Portela

Compositor tinha uma vida muito independente da escola que ele mesmo cantou ser a razão da sua vida.

Não foi apenas a Portela que perdeu Noca, um dos compositores mais importantes da história da escola — vencedor de sete sambas-enredos e que ostentou como honraria, por boa parte dos seus 93 anos de vida e sucessos, o nome da agremiação. Noca da Portela era também o Noca do histórico Trio ABC, com Colombo e Picolino; era o Noca politizado, característica dos grandes da escola de Oswaldo Cruz como o professor Paulo da Portela e Candeia (desses herdou ainda a elegância e a consciência da sua grandeza). Osvaldo Alves Pereira foi também do Catete; do Tuiuti, onde já era campeão de concursos antes de migrar para a azul e branco; do Cacique de Ramos de Bira Presidente e sua turma, para quem criou "Caciqueando", um dos grandes sucessos de Beth Carvalho.

Noca, assim como Zé Kéti, outro portelense fundamental, se aproximou da turma da esquerda durante a ditadura. Ele compreendeu o papel social do sambista e, juntamente com outros compositores como o parceiro Mauro Duarte e jogadores de futebol como Afonsinho, passou a frequentar o Barbas, bar comandado pelo jornalista Nelsinho Rodrigues, que morreu há pouco mais de dois meses, e outros barbudos revolucionários. Do bar surgiu o bloco, em 1985. O Bloco do Barbas foi, ao lado do Simpatia é Quase Amor, o precursor da retomada do carnaval de rua da Zona Sul carioca. Um carnaval politizado, bem-humorado, crítico. Em meio a compositores amadores e outros sambistas, foi fundamental neste processo. E, evidentemente, ganhou dezenas de sambas. Ali já era também o Noca do Barbas.

Foi nesse contexto que conheci um dos muitos Nocas, este com quem tive uma grande proximidade: o Noca "meu parceiro". Eu já seguia seus passos na Casa de Noca, no Encontros Cariocas, casas que ele criou para receber a turma do samba da qual era porta-voz. No Simpatia eu era jovem guarda, nos anos 1990, juntamente com Eduardo Gallotti, Marceu Vieira e outros. E Noca era um adversário nas disputas acirradíssimas no Clube Condomínio. Para se ter uma ideia, Walter Alfaiate, Lenine, Edmundo Souto (um dos autores de "Andança"), Mario Lago Filho, Lefê Almeida faziam parte destas disputas encrencadas.

Um dia, em 1998, Roberto Medronho, hoje reitor da UFRJ, propôs que eu me juntasse a ele e seus parceiros: Noca, Roberto Serrão e Carlinhos Doutor para fazermos um samba. Ganhamos a disputa do Simpatia com "Deixa falar", mais tarde gravado pelo Monarco.

Este parceiro tinha a generosidade de abrir portas para músicos, compositores, cantoras e cantores. Outra semelhança com Zé Keti está no fato de, apesar de ser profundamente identificado com a escola, ele era um cidadão das ruas, do mundo. E esta alma nômade e inquieta o tornou muito popular e sem amarras. Por isso Noca, como disse Vinicius de Moraes sobre Moacir Santos, era tantos.

Já mais pro fim de sua vida, integrou a Velha Guarda da Portela. Diferentemente de seus antecessores, os geniais Manacéa, Argemiro, Alberto Lonato, Monarco, Noca tinha uma vida muito independente da escola que ele mesmo cantou ser a razão da sua vida. Isso não é uma crítica, apenas uma característica do sambista.

O pesquisador e jornalista Ricardo Cravo Albin fez uma bela homenagem à Noca nas redes sociais e o definiu com precisão: "Noca carregava o samba com a naturalidade dos escolhidos. Seus versos jamais eram artificiais. Vinham da alma popular brasileira, das ruas, dos terreiros, das madrugadas, das procissões. Das alegrias e também das dores do nosso povo".

Paulinho da Viola conheceu Noca nos tempos do Tuiuti e lembra de uma passagem curiosa com o amigo: — Certa vez, encontrei Noca na feira onde ele trabalhava, no Largo do Machado, e ele me trouxe uma sacola de frutas e legumes que tinha recolhido com os colegas. Ele era essa pessoa generosa, sempre com um sorriso no rosto, sempre contando histórias engraçadas.

Depois se reencontraram na Portela. Paulinho lembra do desfile de 1995, ano em que retornou à escola, e do samba "Gosto que me enrosco", de Noca, Colombo e Gelson. — Eu estava afastado há tempos e voltei a desfilar. O samba era um acontecimento e a Portela quase levou o campeonato. Tenho a lembrança de ver um integrante da velha guarda chorando, emocionado, num dos carros da escola — conta. — Ele tinha o dom da emoção.

De todos esses tantos Nocas, no entanto, é necessário ressaltar o grande e versátil sambista que ele foi. Autor de sambas-enredos emocionantes como "Gosto que me enrosco" (1995) e "Olhos da noite" (1998), ambos vencedores do Estandarte de Ouro, ele foi parceiro de Candeia ("Mil reis"), Delcio Carvalho ("Vendaval da vida"), Toninho Nascimento ("Peregrino", um dos sambas mais bonitos gravador por Paulinho da Viola), Mauro Duarte ("A alegria continua"), muitos deles pouco conhecidos do público geral.

Noca foi gravado por Beth Carvalho, Clara Nunes, Elza Soares, Fundo de Quintal, Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Bezerra da Silva, Nara Leão, Martinho da Vila, com quem fez "Nem a Lua", em homenagem à Vila Isabel, entre outros tantos.

Noca da Portela é daqueles compositores que precisam ser estudados e descobertos até por quem gosta de samba.

No disco "Brasil mestiço", de 1980, Clara Nunes gravou "Última morada", de Noca e Natal. Era o encontro entre dois mineiros, ela de Paraopeba, ele de Leopoldina. O samba fala da despedida de um sambista: "Quando eu morrer/ Eu quero uma batucada/ Pra me levar pra minha última morada... Quero ouvir acordes de um violão/ e o povo nas ruas cantando as estrofes da minha canção".

Como despedida de sambista é gurufim, o desejo de Noca será cumprido à risca hoje, a partir das 8h, na Quadra da Portela, na Rua Clara Nunes, em Madureira. O velório vai até as 14h.