Cemitério de Manaus acolhe documentário sobre santa assassinada
16/05/2026, 16:41:02
Um Ambiente de Memória e Reflexão
O Cemitério São João Batista, na Zona Centro-Sul de Manaus, se transformou em uma sala de cinema a céu aberto na noite desta sexta-feira para a estreia do documentário "Etelvina – A Ressignificação da Tragédia". O público, composto por moradores, curiosos, artistas e devotos, acompanhou a exibição entre túmulos e corredores do espaço histórico onde está sepultada Etelvina de Alencar, mulher assassinada em 1901 e que se tornou conhecida como "Santa Etelvina" por muitos fiéis da capital amazonense. A escolha deste cemitério para a estreia do filme emprestou um tom simbólico à exibição, enfatizando a importância do local na memória e na fé dos devotos.
A Produção e sua Relevância Social
O diretor do documentário, Cleinaldo Marinho, explicou que a ideia de realizar a estreia no cemitério surgiu durante as pesquisas para a produção. "Eu percebi isso durante as abordagens aqui, vindo para cá, pesquisando. Quantas pessoas vêm para cá ter fé? Nada mais simbólico do que trazer para cá", afirmou.
O filme mistura depoimentos de devotos, documentos históricos e cenas dramatizadas para construir a trajetória de Etelvina, todos captados de forma espontânea, especialmente durante as visitas do Dia de Finados. "Durante dois anos nós viemos para cá no Dia de Finados colher depoimentos espontâneos. Tem pessoas que deram depoimentos e estão aqui hoje assistindo ao filme", relatou Cleinaldo.
Um Patrimônio Histórico e Cultural
Durante a sessão, o clima de silêncio típico do cemitério foi substituído por uma movimentação pulsante, com conversas e reações do público. O turismólogo Silvio Alencar, que também assistiu à estreia, destacou como o evento aproximou o público da história retratada no filme. "Foi uma brilhante estratégia atrair o público diretamente para o local onde se passam essas histórias. Ao invés de outros espaços, trouxeram o público para um patrimônio histórico que precisa ser mais conhecido", declarou.
Reflexões sobre Feminicídio e Violência de Gênero
Etelvina foi morta aos 22 anos em um crime motivado por ciúmes, um fato trágico que também resultou na morte de outras quatro pessoas. Apesar da escassez de registros históricos sobre o caso, sua história se perpetuou na memória popular, fazendo com que seu túmulo se tornasse um lugar de devoção, onde flores, velas e pedidos de graças são deixados por devotos. O filme abre espaço para discussões sobre feminicídio e violência contra a mulher, questionando tanto a construção social das narrativas em torno do assassinato de mulheres quanto a memória dessas histórias ao longo do tempo.
"Estamos aqui para que as pessoas saiam com perguntas. A pergunta faz com que a gente aprenda”, ressaltou o diretor, destacando o poder do documentário em provocar reflexões a partir de uma narrativa que ressoa com problemas sociais atuais. A produção, contemplada pelo Edital de Audiovisual da Lei Paulo Gustavo, pretende agora circular em festivais de cinema, ampliando sua audiência e impacto social.
