El Niño pode causar calor extremo no Brasil em 2026
08/04/2026, 14:46:32
Fenômeno oceânico com alta probabilidade deve intensificar secas, encarecer alimentos e pressionar o sistema elétrico no país, dizem especialistas
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) projeta para o segundo semestre de 2026 a formação de um novo ciclo de aquecimento no Pacífico, com potencial de intensificar ondas de temperatura elevada no território brasileiro, em razão da alteração dos padrões de circulação atmosférica associada ao El Niño. As projeções do órgão indicam cerca de 80% de probabilidade de que o fenômeno se estabeleça entre abril e junho, com efeitos mais intensos a partir de setembro.
Em avaliação técnica, especialistas descrevem a possibilidade de um “desastre térmico”, caracterizado por períodos prolongados de temperaturas acima do conforto humano. As projeções apontam que o cenário pode agravar condições já observadas nos últimos anos, com maior persistência de períodos quentes e secos em diferentes regiões do país.
O El Niño é um fenômeno oceânico natural que ocorre no Pacífico Equatorial, quando a temperatura da superfície do mar nessa região fica acima da média por vários meses consecutivos. Essas anomalias costumam atingir valores em torno de 0,5 °C ou mais, podendo variar de intensidade, e são suficientes para transferir grandes quantidades de calor e umidade para a atmosfera, alterando os padrões de vento e chuva em escala global. O fenômeno funciona como um “motor climático”, redistribuindo calor e umidade em escala planetária e influenciando padrões de vento e chuva.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os últimos anos estão entre os mais quentes já registrados, o que pode intensificar os impactos de fenômenos climáticos.
Dados recentes mostram crescimento na frequência de ondas de alta temperatura no Brasil: 2023: 8 episódios; 2024: 10 episódios; 2025: 7 episódios. Especialistas apontam que não apenas os picos de temperatura, mas a duração desses eventos tem aumentado, com períodos prolongados de calor contínuo em areas urbanas. A clara tendência de maior repetição de estiagens a partir dos anos 1990 se acelerou ainda mais nos últimos dez anos. José Marengo, climatologista e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Também há registro de elevação das temperaturas mínimas, o que reduz o resfriamento noturno e aumenta o estresse térmico sobre a população.
O aumento da demanda por refrigeração pressiona o consumo de energia elétrica e pode elevar custos domésticos. Ao mesmo tempo, a agricultura é afetada pela combinação de seca e calor prolongado, reduzindo produtividade e influenciando o preço de alimentos frescos. Estudos publicados na revista The Lancet indicam que, acima de 35°C, ventiladores perdem eficiência, o que torna o ar-condicionado praticamente indispensável em áreas urbanas, ampliando desigualdades no acesso ao conforto térmico.
Impactos regionais esperados: Sudeste e Centro-Oeste: maior incidência de calor intenso e baixa umidade, com risco de incêndios; Sul: aumento de chuvas e possibilidade de enchentes e deslizamentos; Norte: variação no regime de chuvas e possível atraso no ciclo hidrológico; Nordeste: risco de irregularidade nas chuvas e pressão sobre reservatórios.
Pesquisadores afirmam que esse fenômeno oceânico age sobre um sistema climático que já foi modificado pelo aquecimento global. O aquecimento global causado pela ação humana está fazendo com que o sistema climático responda de forma diferente aos fenômenos naturais, como El Niño, porque a base sobre a qual eles atuam já foi alterada. Carlos Nobre, climatologista brasileiro e ex-presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. A redução de cobertura vegetal e o avanço do desmatamento agravam o quadro ao diminuir a retenção de umidade e elevar temperaturas locais, intensificando secas e eventos extremos.
