O humor perdeu destaque na Globo e na TV aberta

O humor perdeu destaque na Globo e na TV aberta

A perda de espaço do humor na televisão

A TV Globo, que já teve na sua grade programas importantes como Chico City, Os Trapalhões, Viva o Gordo, TV Pirata, Os Normais e A Grande Família, decidiu pausar novas temporadas de séries e humorísticos enquanto revisa sua estratégia de conteúdo para 2026. A informação circulou em colunas de bastidores e veio acompanhada de um diagnóstico: desempenho abaixo do esperado, críticas internas e uma mudança de direção no streaming, agora mais voltada à rentabilidade.

Entrevista com Maurício Meirelles

No meio dessa reavaliação, dois programas entraram em compasso de espera: Tô Nessa!, com Regina Casé, e Aberto ao Público, com Maurício Meirelles. Fui conversar com Maurício Meirelles, humorista à frente do projeto Aberto ao Público, para entender o que ele acha da situação do humor na Globo.

Maurício, o site TV Pop publicou uma matéria com um título chamativo: "Globo suspende séries e humorísticos após fracassos de Regina Casé e Maurício Meirelles." O quanto esse título corresponde à realidade? O que te disseram, de forma concreta, sobre a pausa do "Aberto ao Público"?

“O Aberto ao Público foi um programa de temporada que duraria 4 episódios nas férias de julho. O resultado foi positivo e encomendaram uma segunda temporada com mais 8 episódios durante a semana no mesmo ano. Nunca foi nos vendido como um projeto de grade. Até porque a grade de 2026 já teria Copa e eleição no lugar. O que não impede de colocarem o programa de volta em outro momento ou outra plataforma.”

Apesar das críticas na 1ª temporada, o programa teve uma 2ª. Hoje você sente que a régua deixou de ser audiência e passou a ser lucro?

“Acho que a régua mistura vários elementos: popularidade, comercial, impacto midiático. Mesmo o programa indo bem na audiência, ele precisa ser vendável. E hoje temos diversos produtos concorrendo essa atenção.”

O humor praticamente desapareceu da TV aberta. O problema é o humor ou o formato de humor na TV? E hoje existe mais receio de errar fazendo humor dentro dela?

“Acho que a comédia é o segmento mais difícil de agradar em larga escala, pois é um gênero muito subjetivo. Especialmente no atual momento, onde estamos cada vez mais nichados e consumindo uma comédia que se conecta mais individualmente. Quem gosta de um estilo, consome. Quem não gosta, vai meter o pau. Há mais possibilidades de desagradar do que o contrário.”

Você veio do CQC, passou pela RedeTV e chegou à Globo. O que você consegue fazer hoje na internet que não cabe na TV? E o que a TV ainda consegue fazer melhor que a internet?

“A internet se comunica diretamente com o público e isso facilita muito na hora de fazer comédia. Há comédia específica pra casado, solteiro, homem, mulher, hetero, gay, torcedor de futebol, amante de gato, professor. A internet pulverizou o gênero, que antigamente era mais uniforme.”

O humor saiu da TV ou a TV não sabe mais lidar com o humor?

“Acho apenas que a expectativa tinha que ser outra. Entender que alguns tipos de comédia servem pra agradar um público específico em vez de focarem em quem se desagradou.”

E quanto à polarização? Virou matéria-prima ou campo minado para o humor?

“Ambos. Momentos como o atual transformam uma piada boba em posicionamento. E muitas vezes o comediante só queria encontrar um lado cômico na situação.”

Impressão pessoal: Vendo o Maurício responder e observando o que eu vejo na TV, o humor deixou de ser protagonista. Virou apenas uma ferramenta. Está no programa de auditório, na novela, no reality e nos comentários em programas políticos. Mas cada vez menos existe por conta própria. O humor já foi mais cirúrgico. Hoje é mais disperso. Antes, uma piada encontrava o público. Agora, várias são lançadas esperando que alguma encontre. O humor virou figurante. Ganha menos cachê e aparece menos que o protagonista, seja qual for.