Ética e autoria sobre um vídeo de Erika Hilton
06/04/2026, 12:07:36
Quando um vídeo de Erika Hilton fez um professor esquecer a ética
Criar exige tempo e trabalho. Reconhecer quem criou exige apenas um gesto. Quando isso falta, algo está errado.
Tem gente que confunde compartilhar com se apropriar. E não é um caso isolado. É um padrão. Recentemente, um vídeo meu viralizou. Era uma compilação de momentos da Erika Hilton no Roda Viva. Passou de dois milhões de visualizações.
Muita gente compartilhou, comentou, distribuiu. E, quando vem com crédito, é ótimo. Ajuda todo mundo. O problema começa quando o conteúdo circula sem autoria. Identifiquei mais de dez perfis que baixaram o vídeo, editaram, removeram qualquer identificação e repostaram como se fosse conteúdo próprio. Sem cerimônia. Isso não é só falta de educação digital. É lei. A Lei de Direitos Autorais ( Lei nº 9.610/98) garante ao autor os chamados direitos morais, entre eles o de ter o nome vinculado à obra e o de preservar sua integridade. Também existem os direitos patrimoniais, ligados ao uso e à exploração econômica. Ou seja, não é exagero. É regra básica.
Entre esses perfis, um caso chama mais atenção. Não pelo tamanho, mais de 1,7 milhão de seguidores, mas pela profissão. Um professor! Alguém que, em tese, vive de transmitir conhecimento. E, portanto, de entender o valor da autoria. Esse perfil publicou o vídeo já editado, com o próprio rosto inserido e sem qualquer menção ao autor original.
Na prática, o conteúdo era o mesmo. Só que o crédito tinha desaparecido. Entrei em contato pedindo algo simples. Apagar e repostar corretamente. As justificativas vieram no pacote padrão. Disse que não tinha sido ele que editou. Que foi uma agência. Que não ganhava nada com aquilo. Só tem um detalhe simples. Quem publica responde. Não importa quem editou, sugeriu ou subiu o arquivo. O perfil é seu. A responsabilidade também.
O ponto ainda mais revelador. Foi ele quem me disse que o vídeo fazia parte de uma estratégia para captação de leads para um aulão. Em outras palavras, o conteúdo ajudava a gerar alcance, engajamento e potencial retorno. Ou seja, um vídeo que não era dele passou a ser usado dentro de uma estratégia de crescimento. E isso levanta uma pergunta simples. Se o perfil é dele, por que ele não consegue resolver o que está publicado ali? Curioso. O perfil é dele, mas a decisão não.
A conversa começou com entusiasmo. Que honra receber sua mensagem, você é extraordinário! Mas quando o problema foi apontado, a urgência desapareceu. Veja a prioridade que ele deu pro cara que ele acha extraordinário. Veio a resposta protocolar. Estou literalmente em viagem (com minha família), e preciso dar atenção para eles. Respeito seu pensamento, mas farei somente o que é possível ser feito. Enquanto isso, o vídeo seguiu no ar. Seguiu gerando visualizações, engajamento, alcance. E também sem autoria.
Esse tipo de comportamento não é exceção. É recorrente. A internet facilitou o compartilhamento. Mas também banalizou um atalho perigoso. Tratar conteúdo alheio como se fosse livre de responsabilidade. Não é. Criar conteúdo dá trabalho. Dar crédito não deveria dar trabalho nenhum. Porque crédito não é detalhe, é princípio. E quando até um professor ignora isso, o problema não é só de autoria. É de exemplo. Nesse caso, até a ética foi viajar no feriado.
