Mídia e a falta de clareza na cobertura da guerra
30/03/2026, 18:04:02
A desinformação na era digital
Neste último mês, além de correr muitas vezes por dia para o bunker, tenho me perguntado bastante se a cacofonia que acompanhamos nos meios de comunicação é algo típico dos tempos atuais. Ou será que foi sempre assim? Também tenho refletido sobre como a internet nos propiciou tanto, mas também nos prejudicou profundamente ao massificar a "informação em tempo real". Afinal, quando o principal objetivo do veículo é ser o primeiro a noticiar um evento, torna-se irrelevante a veracidade das informações. Ao priorizar a rapidez em detrimento da qualidade, o conteúdo se torna um produto irrelevante e desajustado. Ao priorizar o volume, o resultado são textos banais, inflados e vazios.
A triste realidade da cobertura jornalística
Nestes tempos, me peguei lamentando a criação da mídia social, cujo impacto sobre a qualidade da informação e os relacionamentos humanos é simplesmente medonho. Em Israel, uma das notícias mais veiculadas na semana passada foi a separação de um casal que foi sequestrado pelo Hamas. Morri de tristeza — menos por causa da separação (cada um sabe de sua vida) do que pela indiscrição da mídia.
O que é verdade na era da informação
Um dia, lá atrás, repetia-se dentro das redações que a notícia de hoje embrulha o peixe de amanhã. A internet nem essa função tem. É, com poucas exceções, um amontoado de ruídos sem relevância. É preciso procurar muito, mas muito mesmo, para encontrar algo que preste — o que acontece com menos frequência do que os leitores merecem.
Raras vezes surgem vozes novas e sãs. Precisamos de mais.
Foco excessivo em conflitos específicos
Acompanho a guerra envolvendo Israel, os Estados Unidos e o Irã pela mídia israelense, que mantém, desde o dia 28 de fevereiro, praticamente 100% do foco nesse conflito. O efeito é significativo: a impressão por aqui é de que todo o mundo acabou e que nada mais existe além dela.
As consequências desse superfoco são perigosas, pois tiram a visão do todo. O regime islâmico, que se alimenta apenas de sua própria propaganda, aparentemente ainda não conseguiu perceber o nível de destruição que a coalizão Israel-EUA está causando no país. Esta é uma das explicações para o fato de o governo iraniano comportar-se como vencedor diante de dois inimigos visivelmente mais poderosos do que ele. A outra explicação atribui essa cegueira à ideologia.
Desconexão entre narrativas
Incrivelmente, aquilo a que assisto ou leio na mídia israelense condiz muito pouco com o que se assiste e se lê no Brasil, nos EUA ou, aparentemente, em qualquer outro país. Um amigo brasileiro, muito bem informado, respondeu a uma mensagem minha a respeito das pesadíssimas barragens de mísseis do Hezbollah sobre a população no norte de Israel, nessas últimas semanas, dizendo: "Jura? Aqui não estamos ouvindo falar sobre isso".
É como se estivéssemos vivendo em dois planetas diferentes. Em um deles, o maior grupo terrorista do globo chega a lançar 200 mísseis em 24 horas focando exclusivamente no norte de Israel. No outro, conduzido por jornalistas da Globo, da Folha, da CNN ou do The Guardian, pergunta-se por que Israel “sempre ataca” o Líbano e “nunca” se interessa em negociar com o governo libanês — como se o contexto que antecede essas ações simplesmente não existisse.
A influência de figuras políticas nas análises
Minha impressão é de que a cabeça da maioria dos jornalistas em todo o mundo gira como um pião toda vez que incluem o nome de Donald Trump em suas análises. Neste último ano, eles vencem na demonstração de maior nível de confusão mental e menor nível de bom senso — que fique claro que estou falando dos redatores, não do personagem (muito embora seja bem difícil defendê-lo). O contraste é evidente: o presidente que é frequentemente descrito como autoritário e centralizador passa, nessas análises, a ser tratado como alguém facilmente influenciável por um terceiro.
O terceiro, no caso, é Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de um país do tamanho de uma unha, com uma população semelhante à de Nova York, que teria convencido o presidente dos EUA a entrar em uma guerra mal calculada do outro lado do mundo. Segundo estes analistas, Trump sentou-se com Bibi e, entre um copinho de arak e outro, decidiu que "sim, vale a pena lutar essa guerra por você, my friend Bibi. Mesmo que eu ferre com a economia global e perca, assim, qualquer chance de reeleição".
Ou seja, metade da força bélica dos EUA estaria, neste momento, no Oriente Médio, motivada por esse amor fraternal. Sim, sim, Trump é definitivamente um cara amoroso — que bom que a mídia nos mostrou isso.
