Câncer colorretal e o consumo de ultraprocessados

Câncer colorretal e o consumo de ultraprocessados

O impacto do consumo de ultraprocessados

Março é marcado pela campanha Março Azul-Marinho, período dedicado à conscientização e prevenção do câncer colorretal (CCR). A doença, que atinge o cólon e o reto, apresenta um dado alarmante para a saúde pública: a maioria dos casos está associada a hábitos modificáveis, como o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, o tabagismo e o sedentarismo.

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado no American Journal of Preventive Medicine, reforça esse alerta: a cada 10% de aumento na ingestão de ultraprocessados, o risco de morte prematura sobe 3%. Os autores recomendam que governos adotem medidas regulatórias e fiscais para facilitar escolhas mais saudáveis pela população. “Os principais fatores de risco são o consumo elevado de carnes vermelhas processadas, a baixa ingestão de fibras, obesidade e alcoolismo, além do histórico familiar. É fundamental realizar campanhas intensas para alertar a população”, ressalta Ricardo Dib, gastroenterologista do Lavoisier e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed).

Ultraprocessados e o cenário global

Segundo Ricardo Dib, a urbanização e a disseminação de alimentos industrializados de baixo custo nas grandes cidades criaram uma “armadilha” nutricional que contribui diretamente para o aumento da obesidade e, consequentemente, dos tumores no aparelho digestivo. “No mundo todo, as cidades absorveram hábitos alimentares nocivos. Hoje, produtos de alto teor calórico e ultraprocessados são acessíveis e sedutores pelo preço. Esse consumo desenfreado é o que causou o aumento absurdo da obesidade, um cenário que precisamos reverter para prevenir a doença”, afirma o gastroenterologista.

Aumento da incidência entre os jovens

Historicamente associado a idosos, o câncer colorretal tem avançado sobre adultos jovens. Um estudo de 2025 da revista The Lancet Oncology confirmou essa tendência em 27 das 50 nações analisadas. “A adoção precoce de maus hábitos está antecipando o surgimento da doença”, pontua Ricardo Dib. O especialista explica que a educação e a visibilidade são os melhores caminhos para a prevenção. Ele menciona a importância da exposição de casos de figuras públicas para ampliar o alcance da informação sobre diagnóstico preventivo.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer colorretal é o segundo mais frequente entre homens e mulheres no Brasil, com estimativas de 53.810 novos casos anuais entre 2026 e 2028.

Diagnóstico e prevenção

A detecção precoce é possível por meio de exames como a colonoscopia, que permite identificar e remover pólipos antes que se tornem malignos. Além do rastreamento, a adoção de uma dieta rica em fibras e a prática regular de exercícios são recomendações essenciais para a saúde intestinal.

Dados da Fundação Nacional do Câncer mostram que o rastreamento reduz a mortalidade pela doença em cerca de 30%. “Confiar apenas em sinais como sangramento ou dor abdominal é arriscado, pois geralmente indicam doença avançada. Nesses casos, a sobrevida em cinco anos é de apenas 15%, enquanto 90% dos diagnosticados precocemente atingem essa marca”, alerta Ricardo Dib. Recomenda-se que pessoas de ambos os sexos realizem exames preventivos a partir dos 45 ou 50 anos.

Mitos e verdades sobre o câncer colorretal

A seguir, confira 10 mitos e verdades sobre o câncer colorretal, assim como os sintomas, os riscos e a prevenção da doença:

  1. A doença é silenciosa em sua fase inicial
    Verdade. O tumor pode se desenvolver sem alarde. Quando os sintomas aparecem, pode ser um sinal de doença avançada.
  2. Afeta apenas pessoas acima dos 50 anos
    Mito. O diagnóstico em jovens está crescendo.
  3. A etnia influencia no risco
    Verdade. Algumas etnias possuem risco elevado.
  4. Mudança de hábitos previne a doença
    Verdade. Estilo de vida saudável pode reduzir em 50% a 75% dos casos.
  5. Alimentação é o único fator de risco
    Mito. Outros fatores como tabagismo e alcoolismo também influenciam.
  6. A obesidade é um agravante
    Verdade. O excesso de peso favorece o desenvolvimento de câncer.
  7. A colonoscopia é o único diagnóstico
    Verdade. É o padrão-ouro na detecção do câncer colorretal.
  8. O exame é doloroso ou constrangedor
    Mito. O uso de sedação moderna torna o procedimento rápido e sem dor.
  9. Pólipo é sinônimo de câncer
    Mito. Encontrar pólipos é uma boa notícia se removidos a tempo.
  10. Todo paciente precisa de bolsa de colostomia
    Mito. A colostomia é cada vez menos comum devido a avanços nas técnicas cirúrgicas.