Advogado critica Polícia Federal ao defender Lulinha
22/03/2026, 12:02:17
Críticas à Polícia Federal
Carvalho, que já foi cotado para chefiar o Ministério da Justiça –órgão ao qual a PF é subordinada–, critica tanto o que chamou de criatividade da investigação, ao ver indícios de ilícitos que, para ele, não existem, quanto o vazamento de informações do caso, que ele classifica como criminoso. Disse, contudo, confiar na corporação e no seu dirigente, o diretor-geral Andrei Rodrigues.
Amigo de Lula (PT), o advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, faz críticas contundentes ao trabalho da Polícia Federal ao defender Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, que vem sendo investigado por supostas ligações com fraudes do INSS. Em entrevista à Folha na sexta-feira (20), o advogado de Lulinha comparou os governos Lula e Jair Bolsonaro (PL), afirmando que, na gestão anterior, houve tentativas de interferência do governo na PF, órgão de Estado, que não estão ocorrendo agora. No entanto, criticou que integrantes da corporação não estão agindo de maneira republicana.
"A Polícia Federal, como instituição de Estado, e como toda instituição, está em disputa. E essa disputa é reflexo da disputa que acontece na própria sociedade, ainda dividida pelo ódio e pela intolerância", afirmou. Carvalho, que atua na defesa de Lulinha com o advogado Guilherme Suguimori, afirmou que a Polícia Federal precisa usar sua independência e autonomia com responsabilidade.
Quanto às investigações, Carvalho negou categoricamente que Lulinha tenha recebido qualquer valor do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, decorrente do esquema de descontos indevidos em aposentadorias de brasileiros. "Não há qualquer tipo de repasse, de forma direta ou indireta. Tanto é que a Polícia Federal está tentando estabelecer linhas, digamos, pirotécnicas, exageradamente criativas, num delírio persecutório que parece não ter fim e nos remete ao que houve de pior no nosso sistema de Justiça. Eles atiram a flecha e pintam o alvo. Então, assim, não deixam de errar. Começaram pelo fim: querer condenar", disse Carvalho.
"Ninguém quer que o Fábio esteja acima da lei. Mas não podemos permitir que ele seja tratado como se estivesse abaixo dela".
Investigações da PF
A Polícia Federal investiga se Lulinha teria recebido valores de Careca do INSS por meio de uma amiga em comum, a empresária Roberta Luchsinger, alvo de uma operação em dezembro. Os três se conhecem: a convite dela, Lulinha fez uma viagem a Portugal em 2024 para visitar um projeto de canabidiol de Careca. Uma das suspeitas da PF é de que Lulinha receberia uma mesada de R$ 300 mil por meio da amiga.
Carvalho rebateu todos os pontos levantados. "Não houve nem um único repasse sequer", afirmou o advogado, referindo-se a valores vindos de Careca ou de Luchsinger. Segundo sua análise, a quebra do sigilo bancário de Lulinha teria comprovado isso, uma vez que os extratos não registrariam transferências nesse sentido. "O vazamento criminoso dos dados foi revelador e tranquilizador", falou.
Sobre a viagem com Careca em 2024, Carvalho reiterou que Lulinha não tinha conhecimento sobre as atividades ilícitas do lobista e que estava na fazenda de canabidiol por ter um familiar com epilepsia que utiliza a substância. "Nós dissemos isso de forma voluntária e espontânea ao ministro André Mendonça, mesmo antes de sermos inquiridos a respeito." A movimentação financeira noticiada nas contas de Lulinha, de R$ 19,5 milhões ao longo de quatro anos, também é contestada. "O Coaf não separa o que é entrada e o que é saída" e duplica os valores a cada transferência entre contas do mesmo titular, esclareceu o advogado. O valor real seria de cerca de R$ 5 milhões em quatro anos, sendo parte da herança de Marisa Letícia e parte de empréstimos feitos ao presidente Lula quando estava preso.
A suspeita de evasão é igualmente rechaçada pelo advogado, que alega que Lulinha planejava mudar-se para Madri desde 2023. A defesa de Luchsinger enviou uma petição ao STF, questionando o vazamento de informações sobre o caso.
Em dezembro, Lula comentou as suspeitas sobre seu filho, afirmando: "Se tiver filho meu metido nisso, será investigado".
"Eis aí a diferença entre um estadista, o presidente Lula, e um miliciano, o ex-presidente Jair Bolsonaro: um interferindo em investigações para blindar a família, o outro pedindo ao filho que se coloque à disposição do STF", declarou Carvalho, enfatizando as diferenças na atuação entre os dois presidentes.
Para Carvalho, a exposição forçada pelo inquérito pode ter um efeito paradoxal. "Se antes ele era um problema, hoje ele pode ser uma solução [para Lula]", afirmou, sugerindo que a oposição pode ter subestimado a situação.
