Clyde Tombaugh e suas cinzas levadas para Plutão
01/03/2026, 09:01:40
Clyde Tombaugh, o descobridor de Plutão
Clyde Tombaugh descobriu Plutão em 1930 e, décadas depois, parte de seus restos mortais foram enviados pela NASA rumo ao planeta anão. Tem gente que sonha em viajar para o espaço em vida. Clyde Tombaugh, realizou este feito depois de morrer. Muito antes de ter suas cinzas enviadas ao espaço, o pesquisador era apenas um jovem do interior dos Estados Unidos tentando construir o próprio telescópio. Responsável por uma das maiores descobertas da astronomia, Clyde precisou enfrentar desafios bem mais terrenos antes de ter sua grande revelação. Sua família vivia da agricultura no Kansas e sofreu anos seguidos pelo mau tempo e os efeitos nas plantações.
Em 1922, depois de perdas nas colheitas, eles se mudaram para outra fazenda em uma cidade vizinha. Como a mudança aconteceu em pleno período de preparo da terra, Tombaugh precisou abandonar o ensino médio por um ano para ajudar o pai no trabalho. Conseguiu se formar na escola em 1925, mas os planos de entrar na universidade seriam novamente adiados quando uma forte tempestade de granizo, em 1928, destruiria toda a produção de milho da família.
A observação que mudou tudo
Foi nesse cenário de dificuldades que o céu, para ele, começou a ganhar outro significado. Em 1924, ainda adolescente, Tombaugh leu na revista Popular Astronomy um artigo do astrônomo amador Latimer J. Wilson sobre as marcas visíveis em Júpiter. Os desenhos publicados o impressionaram tanto que ele decidiu construir o próprio telescópio para enxergar aquelas mesmas características com os próprios olhos. Sem dinheiro para comprar um instrumento pronto, resolveu fabricar um, polindo espelhos e montando as peças manualmente. Ele não imaginava, mas aquele gesto mudaria o rumo da astronomia.
O dia em que Plutão foi encontrado
A partir de 1926, Tombaugh passou a testar a qualidade óptica dos espelhos. Cavou sozinho um buraco de mais de sete metros de comprimento dentro da propriedade da família. A escavação era uma boa solução, porque garantia uma temperatura estável e impedia as correntes de ar, trazendo toda uma condição ideal para observação. E de quebra, ainda servia como adega e abrigo de emergência. Foi com um desses telescópios que ele produziu desenhos detalhados de Júpiter e Marte. As ilustrações chamaram a atenção do Observatório Lowell, no Arizona, que lhe ofereceu um emprego em 1929.
No ano seguinte, trabalhando ali como jovem pesquisador, recebeu a missão de procurar um possível planeta além de Netuno, o chamado "Planeta X", previsto por Percival Lowell a partir de cálculos matemáticos. Usando um astrógrafo de 330 milímetros, Tombaugh fotografava a mesma região do céu em noites diferentes e comparava as imagens com um equipamento chamado 'comparador de piscada'. A dinâmica é, de certa forma, simples. As estrelas permaneciam fixas. Mas objetos mais próximos pareciam saltar de posição. Em 18 de fevereiro de 1930, ele identificou um ponto em movimento próximo à área prevista pelos cálculos. Observações posteriores confirmaram que se tratava de um corpo com órbita além de Netuno. O nono planeta do Sistema Solar havia sido encontrado.
Planeta nomeado por uma garotinha
Após a descoberta, os pesquisadores partiram para a escolha do nome. Minerva e Cronos chegaram a ser considerados, mas logo foram descartados por questões técnicas e disputas internas. A sugestão vencedora veio de uma menina inglesa de 11 anos, Venetia Burney, que propôs "Plutão", em referência ao deus romano do submundo. O nome também homenageava Percival Lowell nas iniciais "P" e "L". A proposta foi aprovada por unanimidade e oficializada em 1º de maio de 1930. Durante mais de 70 anos, Plutão foi o nono planeta do Sistema Solar.
Mas a ciência evolui - e em 2006, quase dez anos após a morte de Tombaugh, a União Astronômica Internacional redefiniu o conceito de planeta. A situação começou a mudar no fim dos anos 1990, quando a descoberta de diversos objetos gelados além de Netuno revelou que Plutão não estava sozinho naquela região. Ele era, na verdade, parte de uma população maior de corpos do Cinturão de Kuiper, e nem sequer o mais massivo deles.
O que Clyde diria?
A mudança gerou debates intensos na comunidade científica e entre o público, mas quem conheceu Clyde Tombaugh acredita que ele teria entendido a decisão. Sua viúva, Patricia, afirmou que, embora ele defendesse o status de planeta durante a vida, reconheceria o avanço das evidências. "Ele era um cientista", disse ela. "Entenderia que havia um problema real quando começaram a encontrar vários desses objetos por ali."
A última viagem
Quando a missão New Horizons foi preparada para o lançamento, a equipe da NASA decidiu incluir algo especial: uma pequena cápsula com parte das cinzas de Clyde Tombaugh, que faleceu em 17 de janeiro de 1997. A inscrição no recipiente diz: 'Aqui jazem os restos mortais do americano Clyde W. Tombaugh, descobridor de Plutão e da 'terceira zona' do Sistema Solar. Filho de Adelle e Muron, marido de Patricia, pai de Annette e Alden, astrônomo, professor, trocadilhista e amigo: Clyde W. Tombaugh (1906–1997)'. Em julho de 2015, a sonda realizou o primeiro sobrevoo da história por Plutão. As cinzas estavam lá. Hoje, a nave segue sua jornada pelo Cinturão de Kuiper, nos limites do Sistema Solar, carregando o homem que, quase um século antes, havia encontrado aquele mundo a partir de uma fazenda no Kansas. É difícil pensar em uma homenagem mais bonita.
