Psicólogo se suicida após denúncia de racismo em Salvador
21/02/2026, 09:00:27
Introdução
Dois casos de racismo em camarotes na capital baiana, entretanto, jogaram luz sobre um outro lado do carnaval da capital baiana.
Carnaval de Salvador 2026
O carnaval de Salvador 2026 encerrou com resultados econômicos e turísticos positivos para o estado da Bahia, além de ter rendido boas histórias de paixão pela folia e deixado um gostinho de saudade para quem curtiu de perto a energia baiana.
O relato do psicólogo
No dia 17 de fevereiro, o psicólogo Manoel Neto usou suas redes sociais para desabafar sobre um episódio no Camarote Ondina, localizado no circuito Barra-Ondina. O psicólogo cometeu suicídio horas após ter denunciado o caso, que teria acontecido no dia anterior, 16 de fevereiro.
Em seu forte relato no Instagram, ele começa com a frase: "A felicidade do branco é plena, a felicidade do negro é QUASE". A partir daí, o psicólogo começa a descrever o que teria acontecido naquela noite. De acordo com ele, a festa estava confortável, com boa música e com a energia de carnaval.
Ele explica que passou um bom tempo conversando com os colaboradores do camarote e interagindo com quem “fazia a festa acontecer”. "Quando eu percebia um atrito vindo de pessoas negras, eu fazia questão de ir conversar, acalmar e dizer que a nossa felicidade — ao menos naquele dia — precisava ser plena. Acontece que, às vezes, um sonho é só um sonho", escreveu ele.
A agressão e sua repercussão
No relato de Manoel, ele explica que tentou passar por meio de uma multidão de pessoas, pedindo licença, quando um homem branco ignorou o pedido do psicólogo mais de uma vez. "Nessa hora me lembrei: sou um homem negro. Eles respeitam a minha agressividade e não a minha cordialidade. Forço a passagem e, olhando no rosto dele, digo furiosamente: 'você vai me deixar passar? Quando eu pedi para passar, você deixa eu passar. Você não está me vendo? Ou eu vou ter que enfiar a mão na sua cara?'" E, como em um passe de mágica, eu consigo passar. Eles respeitam nossa raiva; todo o resto é desumanidade", relatou ele.
Uma discussão começa e logo depois é encerrada com uma tentativa de desculpas por parte do homem e o acolhimento de pessoas que estavam ao lado.
Manoel então continua o desabafo: "Pelo quê? Pela humilhação de não poder transitar em um espaço pelo qual paguei para estar? Por olhar nos meus olhos e ignorar o meu pedido? Por convocar em mim a única coisa que, para esse tipo de pessoa, se torna reconhecível - a agressividade de um homem negro?", continuou ele.
No mesmo dia em que publicou o relato, Manoel Neto cometeu suicídio em Santo Antônio de Jesus. Em nota, a Polícia Civil disse que não comenta casos registrados como suicídio.
A carreira de Manoel Neto
Manoel Rocha Reis Neto era graduado em Psicologia pelo Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Ele também era pós-graduado em Saúde da Família e atuava em clínica particular, com psicanálise lacaniana.
O caso chocou amigos e a comunidade de psicologia, que cobram maior atenção ao apoio à saúde mental e socioeconômica da população negra. Entre textos de despedidas e lamentos, especialistas baianos também comentaram sobre o caso, como a educadora social, Bárbara Carine.
"Independente da pessoa ser negra, ou independente de qualquer outra coisa, você não sabe as dores que o outro carrega na vida dele. Seja sempre cordial. Os maiores índices de suicídio no Brasil são de homens negros. Há um cruzamento do patriarcado com o racismo, que faz com que haja uma ilusão que o animaliza e o instiga o seu senso de violência constantemente na sociedade. Não tem vida que suporte", disse ela em suas redes sociais.
A resposta do Camarote Ondina
Em nota, o Camarote Ondina lamentou a morte do também psicanalista e se solidarizou com seus familiares, amigos e pacientes. "Reafirmamos nosso compromisso inegociável com o respeito, a diversidade e o combate a qualquer forma de racismo e discriminação. O Carnaval da Bahia é expressão da cultura negra, da pluralidade e da convivência, valores que norteiam a atuação do nosso espaço. Seguimos comprometidos em promover um ambiente de acolhimento, inclusão e celebração para todas as pessoas", disse o espaço.
Outros casos de racismo no carnaval
Um dia depois do episódio com o psicólogo, outro caso de racismo aconteceu em um camarote de Salvador, também localizado na Barra-Ondina. Um turista de 42 anos, natural de Santa Catarina, foi preso em flagrante por discriminação racial dentro do espaço, que até o momento não foi identificado.
O homem agrediu verbalmente funcionárias que trabalhavam no espaço, as chamando de “pretas
