Argentina enfrenta greve geral contra reforma trabalhista
20/02/2026, 12:07:17Greve Geral na Argentina e Seus Impactos
Paralisação nacional de 24 horas mobiliza setores estratégicos e amplia a tensão entre governo e sindicatos em meio ao debate no Congresso.
Sindicatos de diferentes categorias cruzaram os braços nesta quinta-feira (19) em uma paralisação nacional de 24 horas na Argentina. O movimento é um protesto direto contra a reforma trabalhista defendida pelo presidente Javier Milei, cuja proposta será discutida a partir das 14h (horário local) na Câmara dos Deputados. A mobilização atinge milhões de argentinos e envolve setores estratégicos da economia.
Desde a meia-noite, trens, metrôs e voos deixaram de circular em várias regiões do país. A maioria dos taxistas também aderiu ao movimento, segundo o jornal La Nación. Apenas algumas linhas de ônibus operam normalmente, como as da empresa DOTA.
Além dos trabalhadores do transporte, participam da greve servidores públicos, comerciários, bancários, profissionais de hotelaria, turismo, gastronomia, caminhoneiros, portuários e parte dos trabalhadores da saúde. A Aerolíneas Argentinas informou que 255 voos foram cancelados, afetando mais de 31 mil passageiros. A paralisação foi convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), maior central sindical do país. A estimativa é que o impacto econômico chegue a cerca de US$ 3 milhões (aproximadamente R$ 15 milhões na cotação atual), ainda segundo o La Nación.
O Ministério da Segurança anunciou que adotará medidas firmes para garantir a ordem durante a greve. Em comunicado, orientou jornalistas a evitarem áreas de possível confronto com as forças de segurança e determinou que a cobertura seja feita a partir de uma “zona exclusiva” em ruas laterais à praça em frente ao Parlamento. O governo também afirmou que responderá a eventuais episódios de violência. A postura sinaliza uma estratégia de contenção mais dura diante da mobilização sindical, que já é a quarta paralisação nacional contra a gestão Milei.
A proposta de reforma já obteve aprovação parcial no Senado, após o governo negociar mudanças para assegurar os 37 votos necessários. Com apenas 20 senadores próprios, o Executivo precisou ceder em alguns pontos para conquistar apoio da oposição. Agora, o texto será analisado pela Câmara dos Deputados. A base governista calcula reunir ao menos 129 parlamentares para garantir o quórum da sessão e aposta em repetir o placar obtido na aprovação do Orçamento de 2026, que contou com 132 votos favoráveis, conforme noticiado pelo jornal argentino Clarín. Caso os deputados promovam alterações, o projeto retornará ao Senado para nova apreciação dentro do prazo regimental.
Para o presidente Milei, a reforma é peça-chave para atrair investimentos estrangeiros, elevar a produtividade e estimular a geração de empregos em um país onde cerca de 40% dos trabalhadores atuam na informalidade. Entre as principais mudanças propostas estão a redução das indenizações por demissão, a limitação do direito de greve e a possibilidade de jornadas de até 12 horas — pontos duramente criticados pelos sindicatos. Cristian Jerônimo, dirigente da CGT, classificou o projeto como "regressivo" e acusou o governo de priorizar a retirada de direitos históricos dos trabalhadores.
A mobilização ocorre em meio a um cenário de desaceleração industrial. Segundo fontes sindicais, mais de 21 mil empresas fecharam nos últimos dois anos, resultando na perda de cerca de 300 mil empregos. Embora o governo tenha conseguido avanços no controle da inflação e na estabilização fiscal, enfrenta críticas devido ao desemprego persistente, salários estagnados e crescimento econômico limitado.
Com cerca de 40% dos 13 milhões de trabalhadores formais sindicalizados — muitos deles historicamente ligados ao peronismo —, o movimento sindical argentino mantém forte influência política e demonstra capacidade de mobilização em momentos decisivos para a agenda econômica do país.