Cobrança de quase R$ 500 milhões do banco de Edir Macedo
17/02/2026, 22:03:18Cobrança do Sócio do Digimais
O sócio do Digimais, Roberto Campos Marinho Filho, está cobrando quase R$ 500 milhões do banco, controlado pelo bispo Edir Macedo, dono da TV Record e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, por causa das perdas sofridas com a derrocada do Banco Master, da empresa de investimentos Reag e da holding Fictor. A informação foi divulgada pelo UOL.
Marinho Filho reclama que viraram pó os papéis da Fictor, da Reag e do Banco Master que lastreiam a participação de 80% do banco de Macedo no fundo de investimento EXP 1, um FIDC (fundo de investimento em direitos creditórios).
Os outros 20% são do próprio Marinho Filho, dono da Yards Capital, gestora do fundo.
Por sua vez, o Digimais também foi à Justiça contra o empresário, dizendo que o sócio sumiu com R$ 88 milhões em rendimentos do fundo sem dar explicações.
O episódio marca um novo imbróglio deflagrado após os escândalos financeiros do Banco Master, da Reag e, mais recentemente, da Fictor.
O Fundo EXP1 e Seus Desafios
O Digimais, que está à venda, tenta se defender dos ataques do sócio, enquanto se reestrutura para melhorar o balanço. Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, foi contratado para presidir o Digimais e desempenhar essa tarefa.
Em meio à disputa, Marinho Filho levanta suspeitas da saúde financeira do banco.
O fundo EXP 1, que iniciou sua operação em fevereiro de 2025, possui cerca de R$ 720 milhões. O Digimais "pagou" sua participação com Certificados de Crédito Bancário (CCBs) que representam o direito do banco em receber pelos empréstimos consignados gerados por Master, Fictor e Reag.
Pelo contrato, esses valores seriam repassados ao fundo.
Os problemas começaram quando o Master e a Reag foram liquidadas pelo Banco Central, após envolvimento em fraudes financeiras. A Fictor, que se dispôs a comprar o Master em novembro de 2025 por R$ 3 bilhões, entrou com pedido de recuperação judicial de R$ 4,2 bilhões em dívidas e assistiu a uma avalanche de investidores tentando resgatar suas aplicações.
Na última quinta-feira (12), a Yards notificou o Digimais a recomprar a carteira de R$ 462,2 milhões, supostamente sem lastro, aportada pelo banco no fundo.
Destes, papéis do Master e da Reag representam a maior parte em valor (R$ 316,6 milhões), enquanto o restante são títulos da Fictor (R$ 145,6 milhões).
A Ligação com Fraude e Apropriação Indébita
No jargão do mercado financeiro, não ter lastro significa inexistir a documentação atrelada a cada operação de crédito, sinal de um negócio fraudulento ou mal feito. No documento enviado ao Digimais, Marinho Filho pede que o banco recompre esses papéis, devolvendo assim, o dinheiro ao fundo. Ele afirma que o contrato assinado entre eles previa esse tipo de gatilho em casos do gênero.
Se isso não ocorrer, Marinho Filho diz que tomará medidas judiciais, questionando a existência desses créditos. O banco nega e diz que a responsabilidade de cobertura em caso de problemas é de quem originou essas operações (Master, Reag ou Fictor).
Marinho Filho afirma que uma auditoria contratada verificou que 22.185 CCBs (no valor de R$ 316,6 milhões) não tinham lastro, sendo que 13.489 eram da Fictor. Segundo o gestor da notificação, o Digimais foi formalmente informado da existência de vícios estruturais graves na carteira de créditos consignados cedida, incluindo a ausência ou insuficiência de documentação comprobatória de parte relevante das Cédulas de Crédito Bancário, inconsistências de originação, má formalização e falhas que comprometem a própria exequibilidade jurídica dos ativos.
"Até a presente data, não houve a devida recomposição financeira desses valores. A situação agravou-se quando ficou comprovado que o próprio Digimais passou a intervir indevidamente na cadeia de pagamento dos créditos cedidos, comunicando cedentes originários e demais convênios para que os repasses deixassem de ser direcionados ao EXP 1 e fossem realizados em favor da própria instituição."
Para ele, essa prática pode ser enquadrada como apropriação indébita.
Defesa do Digimais
O Digimais montou o EXP 1 em fevereiro de 2025, adquirindo as cotas mediante contrato de cessão de direitos creditórios cedidos por outras instituições. Segundo Marcelo Brasil, diretor jurídico do banco, esses direitos totalizaram R$ 722,8 milhões naquele momento, valor que, posteriormente, foi ajustado para R$ 659,7 milhões. Esse recurso foi transformado em cotas do fundo, que passou a ganhar dinheiro com aplicações financeiras feitas a partir dos pagamentos desses empréstimos consignados pelos tomadores.
Em nota, ainda segundo o UOL, o Digimais afirma inexistir a coobrigação. Ou seja, caso houvesse qualquer tipo de problema com esses créditos, a cobertura dos valores não seria feita pelo banco e sim, por quem gerou o crédito. O banco informa que, desde o início, já repassou mais de R$ 88 milhões em pagamentos ao fundo.
"Nas ações judiciais que temos em andamento, os repasses foram devidamente comprovados com planilhas e documentos de transferências bancárias efetuadas nas contas do EXP 1", disse o banco em nota.
Próximos Passos e Conclusão
A disputa ocorre no momento em que os sócios se preparam para discutir a amortização de suas cotas, o único procedimento capaz de reverter o patrimônio em dinheiro para os cotistas. Esta operação está prevista para 28 de fevereiro. No entanto, ainda não se sabe se o EXP 1 terá condições financeiras para fazer esse acerto financeiro após os escândalos envolvendo Master, Fictor e a Reag, que teve sua liquidação decretada pelo Banco Central em 15 de janeiro. Os valores ficaram bloqueados por decisões judiciais em favor de credores.
O Digimais afirma ter ingressado na Justiça contra a Yards porque, desde novembro de 2025, não consegue informações sobre a política de investimento do fundo e a forma como a gestora "precificou" os papéis que hoje compõem o patrimônio do fundo. Por isso, diz que passou a fazer depósitos em juízo, enquanto aguarda o desfecho desse litígio.