Carnaval 2026: Lula e a Arte disfarçada de Campanha
18/02/2026, 06:00:24
Entre samba e holofotes, o protagonismo presidencial no desfile no RJ reacende velhas perguntas sobre ética, conveniência e vitrine nacional
O desfile da Acadêmicos de Niterói homenageando o presidente Lula não teve pedido explícito de voto. Não teve "vote 13" piscando em LED no carro alegórico. Não teve jingle eleitoral.
Teve só 79 minutos de Lula na tela, narrativa heroica, esquerda celebrando o mito progressista e Jair Bolsonaro como alegoria de palhaço preso.
Mas calma aí, meo. Não é propaganda. It’s art!
A Justiça Eleitoral exige pedido explícito de voto para configurar propaganda antecipada. Logo, juridicamente, tudo certo. Pelo menos até agora.
Afinal, ninguém gritou "vote nele". Só exaltaram suas qualidades, relembraram sua trajetória e reforçaram simbolismos partidários em pleno ano eleitoral.
É quase um documentário temático com orçamento público. Tão cirurgicamente não ilegal que parece até estratégia.
Aqui entra o paralelo inevitável com Dias Toffoli.
Enquanto não aparece nada diretamente ligando o ministro ao caso, tudo é absolutamente técnico. A ligação dele com o Resort de Vorcaro foi apenas um detalhe. Coincidência. O mundo jurídico é pequeno.
Enquanto a conexão é indireta, está tudo bem. Quando os vínculos passaram a gerar desconforto público, veio o gesto republicano: pediu para sair.
Não era ilegal, só constrangedor. Aqui, o roteiro é parecido.
O presidente não organizou o enredo, não escreveu o samba e não pediu homenagem.
Ele apenas estava lá no camarote. Sorrindo, dançando, aplaudindo e assistindo ao desfile que o transformou no protagonista absoluto da Sapucaí.
Janja, prudentemente, não desceu para desfilar. Um gesto quase pedagógico de contenção estética. Mas o presidente aceitou a moldura inteira.
Não, não foi campanha. Foi o jeitinho brasileiro em forma de arte.
Setenta e nove minutos não são um detalhe.
Uma frase solta pode ser interpretada. Um gesto isolado pode ser relativizado. Mas uma hora e vinte de narrativa contínua exaltando o presidente em ano eleitoral deixam de ser coincidência e passam a ser ambiente.
É propaganda formal? Olha... talvez não. Agora, é construção simbólica massiva? Sem dúvida. Nem toda propaganda da Nike vem com os dizeres "Compre Nike". Tá implícito o que se deve fazer. Além de reforçar a marca.
E há um detalhe curioso no desfile. Há uma fixação quase freudiana entre eles. Bolsonaro não existe sem Lula. Lula também não parece confortável sem Bolsonaro.
Ele aparece até quando o desfile é para exaltar Lula. A crítica vira combustível narrativo. O adversário é mantido vivo porque rende catarse.
Para quem não é fã de nenhum dos dois, o espetáculo é duplamente cansativo. É como assistir a um casamento em que os noivos passam a festa inteira falando do ex.
O Brasil vira plateia de uma relação tóxica permanente.
O precedente curioso.
Em 1º de janeiro de 2010, ano eleitoral em que Lula apoiava Dilma Rousseff à Presidência, estreou o filme Lula, o Filho do Brasil. Não era propaganda eleitoral. Era cinema. Também não houve pedido explícito de voto, mas sim uma narrativa épica.
O debate na época não foi jurídico, foi simbólico. Era coincidência cultural ou ambiente favorável?
Dezesseis anos depois, a pergunta volta com plumas, alegorias e transmissão em rede nacional.
Quando a arte floresce exatamente no calendário eleitoral, a coincidência deveria ser enredo de escola de samba.
A impessoalidade criativa.
A ética virou um jogo de literalidade.
No papel, Lula não organizou o desfile. Mas, na prática, Lula foi beneficiado por mais de uma hora de exaltação em ano eleitoral.
No papel, Toffoli não tinha impedimento formal imediato. Mas, na prática, o constrangimento estava evidente antes da formalização.
A política brasileira não ultrapassa a linha. Ela samba em cima dela.
E há uma ironia estrutural que quase passa despercebida.
O Carnaval carioca, historicamente, sempre conviveu com o financiamento informal do jogo do bicho, atividade classificada como contravenção penal no Brasil.
Nada disso significa que esta escola esteja irregular. Mas o contexto existe.
E é curioso ver o presidente da República sendo homenageado, em ano eleitoral, dentro de um ambiente cultural que, por décadas, foi sustentado por uma atividade que a própria lei classifica como contravenção.
A impessoalidade, às vezes, parece um conceito flexível demais para um país tão criativo.
Conveniente demais.
Enquanto não há pedido explícito de voto, é arte.
Enquanto não há prova direta, é coincidência.
Enquanto não há assinatura, é técnica.
Não foi propaganda. Foi só um grande número musical.
O Brasil é o único país onde o presidente pode ser celebrado, em ano eleitoral, na maior emissora do país, em um espetáculo que historicamente conviveu com financiamento ligado a uma contravenção penal. Timing, contexto e coincidência impecáveis.
Mas tudo absolutamente impessoal. Seguimos!
