Teatro Procópio Ferreira não caiu, revela verdade surpreendente

Teatro Procópio Ferreira não caiu, revela verdade surpreendente

Una imagem criada por IA virou manchete

Uma imagem criada por IA virou manchete, indignação e lamento coletivo, enquanto bastava atravessar a rua para descobrir que nada daquilo era verdade. Eu tenho uma memória afetiva com o Teatro Procópio Ferreira. E não é pouca. Todo mundo lembra dele por causa do Sai de Baixo. Eu também. Domingo à noite, sofá, risada gravada, Caco Antibes humilhando o pobre e a gente entendendo que era piada. Enfim, a infância emocional de um país inteiro. Mas a minha relação com aquele teatro não ficou só na televisão. Durante dois anos, eu me apresentei ali todas as semanas com o Clube da Comédia Stand-up, grupo pioneiro de stand-up em São Paulo. Marcelo Mansfield, Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Marcela Leal e eu no palco. Lotava! Gargalhada real, suor real, público real. Foi ali também que dirigi um show de comédia. Ou seja: não é só nostalgia de espectador. É memória de palco. De bastidor. De camarim cheio. De aplauso ao vivo.

O que aconteceu de verdade

Por isso, quando eu vi a notícia de que o teatro tinha sido demolido, eu pensei: “Cacetada… Lá se foi um pedaço da minha história também.” Mas aí veio a parte curiosa: o teatro NÃO FOI demolido!

A checagem impossível

Tudo começou com uma única imagem, essa aí de cima, circulando nas redes sociais, mostrando uma máquina supostamente demolindo o teatro. A foto é falsa, feita por inteligência artificial. Mesmo assim, a imagem virou verdade. Não no zap, mas em grandes veículos de imprensa. Terra, Band, CNN, Globo e vários outros publicaram títulos como “Começa a ser demolido”, “Início da demolição”, “São Paulo destrói o teatro”, afirmando a demolição já na manchete. Não foram blogs, foram veículos com redação, editor, telefone, repórter, Google Maps. Com gente que, teoricamente, sabe onde fica a Rua Augusta. E mesmo assim, ninguém pensou: “Será que alguém pode ir lá olhar?” Estamos falando de um teatro numas das regiões mais centrais e acessíveis da cidade. Não é um sítio arqueológico no meio da Amazônia. Não é uma cratera em Marte. É Augusta. Perto da Paulista. Com ônibus, metrô, Uber, bicicleta, patinete e gente andando a pé. Era só o quem escreveu as matérias pedir pra uma tia solteira que mora perto passar na frente e mandar um áudio: “Olha, não caiu não. Tá tudo aí...”

O impacto das informações

Claro que isso depende da tia. Porque, se for aquela tia que acredita em tudo que vem no zap, ela talvez continuasse a frase: “...mas parece que o Lula tá escondido no subsolo.” Mas mesmo assim: era checável. Muito checável. A errata escondida e o escândalo em destaque depois que a fake news já tinha rodado, emocionado, revoltado e rendido engajamento, veio a correção. Ela veio discreta, meio tímida, sabe? Aquelas no fim da matéria? Quase pedindo desculpa por atrapalhar a indignação. Aqui estão os fatos: A fachada foi retirada. O teatro está fechado. Não houve demolição autorizada. O prédio continua de pé. Alguns veículos, como a Folha e a Veja SP, deixaram isso claro já no título. Outros corrigiram depois, editaram texto, incluíram nota.

A responsabilidade da imprensa

Mas, quando a correção chega, o estrago principal já está feito: a maior parte das pessoas só viu a primeira manchete. Mas isso já não importava mais. A tragédia já tinha sido consumida. O luto já tinha sido performado. A timeline já tinha seguido adiante. Até o Kleber Mendonça Filho já tinha chorado. O problema não é errar. É errar grande e checar pequeno. Fake news não é mais coisa de tio conspiracionista. Hoje ela vem com o emblema de veículos que deveriam apenas nos informar direito. É essa a essência do trabalho deles. Me incluo nisso.

A imprensa e a verdade

O problema não é alguém se enganar com uma imagem feita por IA. O problema é transformar uma imagem não verificada em fato, sem o mínimo esforço de confirmação. E, principalmente, manter a manchete chamativa, sabendo que muita gente se informa de maneira superficial. A imprensa critica veementemente as fake news, mas não toma um cuidado tão básico como esse? Provavelmente a razão seja: redações enxutas, pressa pelo clique, dependência de trending topics, a sensação de que, se você não publicar agora, está “atrasado”. Mas nada disso justifica.

O verdadeiro espetáculo

O Teatro Procópio Ferreira continua lá. Fechado sim. Ameaçado sim. Vulnerável sim ao mercado imobiliário como tantos outros espaços culturais da cidade. Existe projeto imobiliário, existe interesse econômico, e esses equívocos, frutos de trabalho mal feito, ajudam a especulação imobiliária porque as notícias falsas entram no inconsciente popular. Quando (e se) demolirem de verdade, vamos pensar: “Ué, mas já não tinham...” O espetáculo mais impressionante dessa história não foi no palco. Foi na internet. Foto falsa, imprensa apressada, indignação automática e correção envergonhada. O teatro resistiu. O critério jornalístico, não. E o ano eleitoral só está começando. Vai vendo!