Filipe Martins desobedece Moraes e vai para prisão antecipada

Filipe Martins desobedece Moraes e vai para prisão antecipada

Medida joga gasolina na guerra cultural que o ex-assessor sabe manejar como poucos. A própria prisão provocada é um risco calculado de desgaste do STF

Filipe Martins, ex-assessor da Presidência durante o governo Jair Bolsonaro, foi condenado em dezembro de 2025 a 21 anos de prisão por participação na trama golpista. Ele sabe que não vai escapar da cadeia, mas entre cumprir a ordem da Justiça em silêncio ou cair atirando, dando sequência à guerra cultural da qual é um dos principais artífices, não pensou duas vezes: descumpriu uma medida cautelar imposta por Alexandre de Moraes e adiantou por alguns dias a ida para a prisão em regime fechado. Nesta sexta-feira (2) ele foi preso pela Polícia Federal por ordem do ministro.

Essa guerra é manejada desde a escolha de seu defensor, Jeffrey Chiquini, um misto de advogado com influencer da extrema direita. Ambos provocaram e provocaram até que Moraes mandou parar a brincadeira no meio do plantão de Ano Novo. A razão, para os leigos, é um simples acesso a rede social, o que estava proibido desde que passou a cumprir prisão domiciliar. Mas não é bem assim.

Em dezembro, a Primeira Turma do STF concluiu que ele foi um dos responsáveis por elaborar e entregar ao então presidente a chamada "minuta do golpe", que previa a decretação de estado de sítio e a prisão de autoridades – incluindo o ministro Alexandre de Moraes. Martins era um dos auxiliares mais próximos de Bolsonaro. Integrante da ala ideológica do governo, ele atuava como uma espécie de ponte entre o Planalto e a extrema-direita internacional, sobretudo nas discussões sobre política externa e segurança. No fim do mandato, tinha acesso direto ao então chefe do Executivo.

Segundo a denúncia da Procuradoria Geral da República, Martins era peça-chave do chamado "núcleo 2" da organização. Foi este o grupo responsável por operacionalizar ações para desacreditar o sistema eleitoral e monitorar opositores. Nesta semana, Moraes foi informado de que Martins utilizou uma rede social (no caso, o Linkedin) para buscar perfis de terceiros. Descumpriu, assim, uma proibição imposta pelo magistrado para que ele pudesse cumprir prisão domiciliar enquanto aguardava o julgamento dos recursos da ação.

Moraes já havia ligado o alerta desde a fuga de Silvinei Vasques, ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal, para o Paraguai. Vasques também integrava o núcleo 2 da trama. No despacho, Moraes citou risco de fuga também do assessor. E, como um diretor de escola diante do aluno brigão, esclareceu: “O acusado demonstra total desrespeito pelas normas impostas e pelas instituições constitucionalmente democráticas, em virtude de que, ao fazer uso das redes sociais, ofende as medidas cautelares aplicadas, assim como, todo o ordenamento jurídico”.

Martins vai para a prisão sob protestos, deixando aos seguidores a revolta contra Moraes, o STF, o “sistema” e toda a gramática que só a turma sabe manejar. Mas as razões que o levaram ao xadrez não são banais. Martins não era só um dos assessores mais próximos de grupo que durante quatro anos (des)governou o país. Era também um dos mais perigosos.