Nos tempos divididos, uns foram os das mãos, outros os das mentes
30/12/2025, 15:52:45Essa é a divisão compreensível do tempo, mas não a dos homens. Ainda tem homens bem menores do que pensam ser.
Houve um tempo em que as mãos eram o centro do mundo. Eram elas que erguiam casas, lavravam a terra, moldavam ferramentas e sustentavam o peso visível da sobrevivência. O valor do homem era medido pela força dos braços, pela resistência ao sol, pelo calo que denunciava trabalho. Nesse tempo, o esforço era concreto, sujo de chão e suor, e ninguém precisava explicar para que servia: bastava olhar ao redor para entender.
Com o passar dos anos, outro tempo se impôs. Não substituiu totalmente o primeiro, mas passou a dominá-lo. Vieram os tempos das mentes. As mãos continuaram necessárias, porém subordinadas. O comando passou a vir de mesas limpas, salas climatizadas e discursos bem ensaiados. Decidir tornou-se mais importante do que fazer; pensar, mais valioso do que executar. E assim se criou uma divisão silenciosa, porém profunda.
Nos tempos divididos, as mãos passaram a obedecer a mentes que raramente conhecem o peso do que determinam. Planeja-se à distância o esforço alheio, calcula-se o sacrifício de quem não participa da conta final. Muitas mentes brilham em teorias, mas desconhecem a realidade que as mãos enfrentam todos os dias. Daí nascem políticas frias, decisões desumanizadas e projetos que funcionam no papel, mas fracassam na vida real.
Por outro lado, há mãos que executam sem compreender, repetem sem questionar, sustentam estruturas que não as reconhecem. Quando a mente se afasta da mão, perde o senso de limite; quando a mão se afasta da mente, perde o sentido do caminho. Essa ruptura é o retrato dos tempos atuais: eficiência sem humanidade, esforço sem propósito.
O desafio não está em escolher entre mãos ou mentes, mas em reconciliá-las. O tempo justo é aquele em que quem pensa entende o peso do que manda fazer, e quem faz participa do pensar. Fora disso, seguiremos divididos, com mentes que se acham superiores e mãos que carregam o mundo sem jamais tocá-lo por inteiro.