Nos tempos divididos, uns foram os das mãos, outros os das mentes

Essa é a divisão compreensível do tempo, mas não a dos homens. Ainda tem homens bem menores do que pensam ser.

Nos tempos divididos, uns foram os das mãos, outros os das mentes

Houve um tempo em que as mãos eram o centro do mundo. Eram elas que erguiam casas, lavravam a terra, moldavam ferramentas e sustentavam o peso visível da sobrevivência. O valor do homem era medido pela força dos braços, pela resistência ao sol, pelo calo que denunciava trabalho. Nesse tempo, o esforço era concreto, sujo de chão e suor, e ninguém precisava explicar para que servia: bastava olhar ao redor para entender.

Com o passar dos anos, outro tempo se impôs. Não substituiu totalmente o primeiro, mas passou a dominá-lo. Vieram os tempos das mentes. As mãos continuaram necessárias, porém subordinadas. O comando passou a vir de mesas limpas, salas climatizadas e discursos bem ensaiados. Decidir tornou-se mais importante do que fazer; pensar, mais valioso do que executar. E assim se criou uma divisão silenciosa, porém profunda.

Nos tempos divididos, as mãos passaram a obedecer a mentes que raramente conhecem o peso do que determinam. Planeja-se à distância o esforço alheio, calcula-se o sacrifício de quem não participa da conta final. Muitas mentes brilham em teorias, mas desconhecem a realidade que as mãos enfrentam todos os dias. Daí nascem políticas frias, decisões desumanizadas e projetos que funcionam no papel, mas fracassam na vida real.

Por outro lado, há mãos que executam sem compreender, repetem sem questionar, sustentam estruturas que não as reconhecem. Quando a mente se afasta da mão, perde o senso de limite; quando a mão se afasta da mente, perde o sentido do caminho. Essa ruptura é o retrato dos tempos atuais: eficiência sem humanidade, esforço sem propósito.

O desafio não está em escolher entre mãos ou mentes, mas em reconciliá-las. O tempo justo é aquele em que quem pensa entende o peso do que manda fazer, e quem faz participa do pensar. Fora disso, seguiremos divididos, com mentes que se acham superiores e mãos que carregam o mundo sem jamais tocá-lo por inteiro.

Creditos: Professor Raul Rodrigues