Cientista brasileiro investiga minicérebros no espaço
31/12/2025, 18:04:04Uma trajetória inspiradora
A inquietação do pesquisador brasileiro Alysson Muotri começou na infância, quando observou os primeiros sinais de Alzheimer do avô. Cientista e pesquisador na Universidade da Califórnia (UCLA), Muotri se dedica a investigar doenças relacionadas à cognição social humana. O que o torna único é a forma como realiza esses estudos, utilizando minicérebros criados em laboratório e "envelhecidos" no espaço.
O que são os minicérebros?
Os minicérebros são organoides cerebrais humanos que permitem uma análise detalhada das redes neurais e do desenvolvimento cerebral. Isso possibilita que cientistas estudem de maneira eficaz doenças neurológicas e a resposta a medicamentos, além de outros aspectos que seriam impossíveis de analisar diretamente em humanos.
Uma nova abordagem na pesquisa
Muotri destacou em entrevista ao Portal iG: "Todo mundo nasce cientista, mas vai deixando de ser." Essa frase reflete sua crença de que todos têm a capacidade de investigar e descobrir. Formado em ciências biológicas pela UNICAMP e com doutorado em genética pela USP, ele sempre teve interesse em entender como o cérebro humano molda nossas habilidades sociais.
Durante sua trajetória, Muotri se deparou com uma barreira: em laboratórios avançados dos Estados Unidos, o uso de cérebros de camundongos não fornecia um modelo adequado para investigar o comportamento social humano. No entanto, uma descoberta em 2012 permitiu que ele utilizasse técnicas de reprogramação celular para criar minicérebros.
Desafios e colaborações
Um dos problemas enfrentados foi a incapacidade dos minicérebros de reproduzir o envelhecimento, uma questão crítica já que muitas doenças neurológicas aparecem com a idade. A solução surpreendente surgiu da NASA, que havia constatado que astronautas apresentavam sinais de envelhecimento celular precoce após missões espaciais.
Muotri propôs uma colaboração que envolvesse o envio de minicérebros para a Estação Espacial Internacional, onde seriam submetidos à microgravidade. Após uma série de tentativas e colaborações com a empresa Space Tango e a SpaceX, ele finalmente conseguiu enviar os minicérebros ao espaço.
Resultados promissores
Após 30 dias em microgravidade, os resultados foram impressionantes: mudanças nos marcadores celulares que se equipararam a anos de envelhecimento. Isso levou a NASA a concordar em colaborar com sua pesquisa de maneira mais formal.
O futuro da pesquisa no espaço
Para Muotri, a pesquisa no espaço é o futuro da ciência, permitindo observações inovadoras de processos biológicos. Ele ressaltou que, apesar dos desafios e custos associados ao acesso ao espaço, as oportunidades que a microgravidade proporciona são vastas e podem acelerar o entendimento de doenças neurológicas.
Saberes ancestrais na pesquisa
Além disso, Muotri está envolvido em um projeto que busca explorar substâncias extraídas de plantas usadas por povos indígenas. Trabalhando em colaboração com o professor Spartaco Astolfi Filho, o objetivo é identificar moléculas que possam proteger o cérebro e testá-las nos minicérebros, respeitando os saberes tradicionais e colaborando com as comunidades indígenas.
Considerações finais
De uma infância marcada pelo Alzheimer à pesquisa inovadora no espaço, a trajetória de Alysson Muotri é um exemplo de como ciência, tecnologia e saberes tradicionais podem se unir em busca de respostas sobre o cérebro humano e suas complexidades. Ele acredita que, com mais laboratórios em órbita, novas oportunidades para descobertas revolucionárias na medicina e na ciência serão possíveis.