Influencer condenado por manter escrava em Campinas
15/12/2025, 18:21:01Condenação por Trabalho Análogo à Escravidão
O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas, cidade no interior de São Paulo, condenou em 1ª instância o influencer de medicina chinesa Peter Liu, que acumula mais de 3 milhões de seguidores no Youtube e quase 1 milhão no Instagram, por situação análoga à escravidão. A vítima (que terá o nome preservado) trabalhou por 30 anos nas tarefas domésticas, nos afazeres da família e na clínica do influenciador, por mais de 15h diárias, sem receber salário e vivia dos trocos que sobravam das compras da casa.
Rotina Exaustiva
Segundo o processo, a mulher, que hoje tem 59 anos, tinha uma rotina exaustiva de trabalho, que começava às 7h e só parava às 22h, momento em que era permitido que ela se alimentasse. Questionado pelo Metrópoles, Peter Liu disse que a vítima é funcionária da sua ex-esposa e que não tem contato com ela há mais de 20 anos. No entanto, fotos anexadas ao processo em que ele foi condenado por manter a empregada em trabalho análogo à escravidão mostram Liu ao lado da filha, do genro e da funcionária em um sorveteria, em São José do Rio Preto (SP), em agosto de 2018.
História da Vítima
A história da vítima com a família começou em 1992, quando Peter Liu e a esposa, Jane Liu, vieram da China para o Brasil e se estabeleceram em Recife (PE). Na época, uma amiga em comum apresentou a funcionária para tomar conta do filho mais velho do casal. Nos primeiros seis meses como babá, ela disse que recebeu um salário mínimo por mês, mas não houve registro profissional. A família chinesa teria prometido que a situação trabalhista seria regularizada assim que eles fossem naturalizados brasileiros.
Segundo o relato da vítima, depois dos primeiros meses, as promessas não se realizaram, e a funcionária foi convidada por Jane, mãe dos filhos de Liu, a se mudar para São Paulo. A família foi para Campinas, no interior paulista, escapando de uma autuação por clínica irregular em Recife. Quando chegou a Campinas, a empregada doméstica, que é semianalfabeta, parou de receber salário. Ela é de Belo Jardim, cidade de 83 mil habitantes no interior de Pernambuco, tem 59 anos e viveu em condição análoga à escravidão com a família Liu desde os 27 anos.
Revelação dos Abusos
Segundo o processo, ela viveu nessa situação até 2022, quando, enfim, tomou ciência dos supostos abusos trabalhistas e pediu o pagamento do salário. Diante disso, teria sido ameaçada de morte por Jane, que também teria feito ameaças à família da empregada. Em alguns momentos, de acordo com o processo, a mulher tinha que dormir na maca do consultório de medicina chinesa que funcionava na casa da família. Em outros períodos, sua cama estava instalada em um depósito de materiais.
Testemunho da Filha de Peter
Um relato da filha de Peter, Anni, que rompeu com o pai, aponta que a empregada chegou a ser picada por um animal peçonhento na casa da família, mas não recebeu cuidados médicos. Além dos afazeres domésticos, ela foi introduzida a conceitos básicos das terapias orientais e tinha de preparar pacientes da clínica, onde também atuava como secretária. Ao longo dos 30 anos, o único dinheiro recebido pela vítima eram trocados que ela recebia de compras que fazia para os Liu.
Atuação e Indenização
A empregada vive hoje com a filha de Liu, Anni, que também foi condenada no mesmo processo que os pais e o irmão. Ela pede para ser perdoada da condenação, alegando que, quando compreendeu que a funcionária era uma escrava, tomou as medidas cabíveis para retirá-la dessa condição. Anni teria ajudado a empregada a procurar terapia e proibido ela de voltar à casa dos pais para ajudar em tarefas domésticas. Nesse processo, a vítima encontrou um advogado que a ajudou a mover ação contra toda a família que a manteve escravizada.
Relações Familiares e Defesa
Em depoimento na Justiça, Anni afirmou que rompeu os laços familiares com os pais por causa da forma como a empregada era tratada. No processo, a defesa da família levanta suspeita sobre a ajuda de Anni à empregada: "Qual a real intenção da autora em promover ação temerária de reconhecimento de vínculo e trabalho análogo à escravidão contra sua sócia e seu atual núcleo familiar, com quem segue morando e vivendo? Se isso é um problema, não se justifica a permanência da mesma na mesma residência", questionam os advogados.
Anni é representada por um escritório de advocacia diferente dos pais e do irmão. A filha dos Liu alega que não havia nascido quando a funcionária começou a trabalhar para a família e chegou a torná-la sócia da empresa de saúde que tem em Olímpia, interior de São Paulo, como forma de dar-lhe "independência financeira". Embora os Liu digam na defesa que a funcionária faz parte da família, os filhos que a empregada viu crescer fizeram faculdade e se formaram em medicina, enquanto a vítima, segundo a filha dos Liu, era chamada de "nordestina burra" e criticada por não ter formação escolar.
Decisão e Consequências
Peter, os filhos Davi e Anni, e a mãe deles, Jane, foram condenados em 1ª instância pelo crime de reduzir alguém a condição análoga à escravidão. A defesa de Peter, Davi e Jane recorre, alegando que não havia vínculo trabalhista. Já Anni, com quem a ex-empregada vive atualmente, tenta ser excluída do processo sob a alegação de que, ao ter entendimento da condição da vítima, tomou medidas para ajudá-la — como pagar sessões de terapia e incentivar seu convívio com outras pessoas.
A família foi condenada a pagar R$ 400 mil à ex-empregada. O valor é considerado baixo pela defesa da vítima. Segundo o advogado, o patrimônio da família Liu é de R$ 10 milhões, montante que poderia obter o valor da indenização em oito meses por meio de aplicação financeira simples. "Não se deve deixar que a atividade de escravizar seres humanos se torne uma atividade lucrativa, algo que compense para os escravizadores, que torne banal o trabalho análogo à escravidão e seja ‘economicamente viável’", diz a denúncia.
O juiz ordenou que os autos sejam encaminhados ao Ministério Público do Trabalho (MPT), ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal (PF).
Em nota, a defesa de Peter Liu e Jane alegou que o caso se trata de uma "trama armada". Segundo o advogado, o processo só foi movido pela vítima após ela se frustrar numa "negativa 'do casal' em dar dinheiro". A tentativa teria sido feita em conluio com a filha de Liu, que atualmente vive com a empregada. "A defesa e provas apresentadas no processo foram suficientes para desmascarar a tentativa de obter valores sobre meus clientes", disse. "Meus clientes confiam na Justiça e possuem certeza de que os tribunais superiores irão reverter a decisão inicial", acrescentou a defesa.