Se o aumento da conta de água for legalizado, de que adianta bater de frente?

Somente aos imbecis é dado o direito de converter fatos em boatos. Mas existe essa categoria. Inclusive dos seguidores das batalhas perdidas.

Se o aumento da conta de água for legalizado, de que adianta bater de frente?

Poucos assuntos despertam tanta indignação popular quanto o aumento na conta de água. Em cidades onde o abastecimento já é precário, qualquer reajuste soa como uma afronta ao bolso e à paciência do cidadão. A pergunta que fica é: se esse aumento for legalizado, de que adianta bater de frente?

De um lado, há a lógica fria da legalidade. Uma concessionária, amparada em contrato com o poder público, se apoia em índices oficiais de reajuste, planilhas de custos e nas cláusulas que lhe garantem equilíbrio financeiro. Em tese, não há ilegalidade. O aumento se torna “justo” no papel, ainda que injusto na vida real. Afinal, cumprir a lei não significa, necessariamente, respeitar a justiça social.

Do outro lado, está a realidade do consumidor. A população, já sufocada por impostos, energia cara, transporte deficiente e alimentos cada vez mais pesados no orçamento, vê no aumento da água — um bem essencial e inegociável — a gota d’água. O sentimento é de impotência: reclamar adianta pouco quando o argumento da legalidade é jogado sobre a mesa.

Mas é justamente aí que está a contradição. Se a lei ampara um aumento abusivo, a luta não deve ser contra a conta em si, mas contra o modelo que autoriza esse tipo de prática. Bater de frente, ainda que pareça inútil, é sinal de resistência. É lembrar aos gestores públicos e às empresas concessionárias que não basta cumprir a lei, é preciso atender ao interesse coletivo.

A grande pergunta não deveria ser se é legal ou não, mas se é moral e socialmente aceitável. Afinal, o fornecimento de água não é um negócio qualquer, é um serviço essencial. Quando o aumento legalizado sacrifica famílias inteiras, o problema deixa de ser de planilha e passa a ser de humanidade.

Portanto, ainda que a lei esteja contra o povo, o ato de contestar continua sendo vital. Silenciar diante do legalismo frio é abrir caminho para que outros reajustes — igualmente “legais” — se tornem rotina. Questionar, denunciar e pressionar é o mínimo que se pode fazer. Porque, no fim das contas, a legalidade pode ser manipulada, mas a necessidade do povo é inegociável.

Creditos: Professor Raul Rodrigues