5 conclusões após 4 semanas de guerra entre Israel e Hamas

5 conclusões após 4 semanas de guerra entre Israel e Hamas
Uma das primeiras coisas a compreender sobre as reportagens, análises e comentários que têm sido publicados desde os ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro, é que ninguém conhece todos os fatos.
Como sempre, é muito difícil penetrar na névoa de uma guerra para perceber o que está acontecendo no campo de batalha. A nova forma do conflito entre israelenses e palestino ainda não surgiu.
Os eventos ainda estão acontecendo rapidamente. Os receios de que a guerra possa se espalhar são muito reais. Novas realidades no Oriente Médio estão por aí, mas a forma como irão funcionar depende de como esta guerra vai se desenrolar durante o resto do ano, e provavelmente mais além.
O editor de notícias internacionais da BBC, Jeremy Bowen, listou alguns dos fatores que sabemos e outros que ainda geram dúvidas sobre o futuro da região.
Uma certeza é que os israelenses apoiam a campanha militar para acabar com o poder do grupo islâmico Hamas e do seu parceiro, a Jihad Islâmica.
A retaliação é motivada pelos ataques do Hamas, que deixaram 1.400 pessoas mortas em 7 de outubro, e pelo fato de cerca de 240 reféns ainda estarem detidos em Gaza.
Conversei com Noam Tibon, um general reformado do Exército de Israel, para saber como ele conseguiu chegar com a sua mulher até Nahal Oz, um kibutz na fronteira com Gaza, depois do ataque do Hamas em 7 de outubro.
Sua missão, bem-sucedida, era resgatar seu filho, sua nora e suas duas netas pequenas que estavam trancados em um bunker, ouvindo homens armados do Hamas vagando do lado de fora.
Noam Tibon, de 62 anos, está aposentado e tem ótima aparência. Para salvar a família, foi armado com uma espingarda e um capacete que tinha tirado de um soldado israelense morto - o homem havia liderado um grupo de soldados que tinha se reunido no caos daquele dia, salvando a vida da sua família e de muitas outras pessoas no kibutz.
O general é um oficial israelense da velha escola e de fala franca.
"Gaza vai sofrer... nenhuma nação vai concordar que o seu vizinho vai massacrar bebês, mulheres ou pessoas. Tal como vocês (britânicos) esmagaram o seu inimigo durante a Segunda Guerra Mundial. Isto é o que precisamos fazer em Gaza. Sem piedade."
O que dizer dos civis palestinos inocentes que estão sendo mortos?, perguntei a ele.
"Infelizmente, está acontecendo. Vivemos em uma região difícil e precisamos sobreviver... temos de ser duros. Não temos escolha", respondeu.
Muitos israelenses partilham o seu sentimento de que as mortes de civis palestinos são lamentáveis, mas que isso é uma consequência das ações do Hamas.
É evidente que o ataque de Israel à Faixa de Gaza está causando um terrível derramamento de sangue. O último número de mortes de palestinos, divulgado pelo Ministério da Saúde de Gaza, dirigido pelo Hamas, ultrapassou 9.000 pessoas - dos quais cerca de 65% são crianças e mulheres.
Não está claro quantas das pessoas assassinadas eram civis ou lutavam pelo Hamas ou pela Jihad Islâmica.
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e as autoridades israelenses não confiam nos números do ministério. Mas em conflitos anteriores, as estatísticas de vítimas palestinas foram consideradas precisas pelas organizações internacionais.
Um marco sombrio está se aproximando rapidamente. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que cerca de 9.700 civis foram mortos na Ucrânia desde a invasão russa em grande escala, há 21 meses.
Alguns dos palestinos mortos faziam parte do Hamas, segundo as autoridades israelenses. Mas mesmo que essa proporção chegue aos 10%, o que é improvável, significa que Israel está no caminho para ter matado, em pouco mais de um mês, mais civis do que a Rússia na Ucrânia desde fevereiro de 2022.
O gabinete dos direitos humanos da ONU afirmou que teme que os ataques aéreos de Israel sejam desproporcionais e possam ser classificados como crimes de guerra.
Desde os primeiros dias após os ataques do Hamas, o presidente americano Joe Biden apoiou a decisão de Israel de usar a força militar para tentar retirar o Hamas do poder em Gaza. Mas ele também acrescentou que isso precisava ser feito "da maneira certa".
Biden quis dizer que Israel deveria observar as leis da guerra que protegem os civis.
O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, visitou Tel Aviv recentemente. "Quando vejo uma criança palestina retirada dos escombros de um prédio destruído (por ataque aéreo), isso me atinge tanto no estômago quanto ver uma criança de Israel ou de qualquer outro lugar", disse Blinken.
Cobri como repórter todas as guerras de Israel nos últimos 30 anos. Não me lembro de uma administração dos Estados Unidos ter afirmado publicamente que Israel "precisa observar as leis da guerra".
A visita de Blinken nesta sexta-feira (3/11) sugere que ele acredita que Israel não está seguindo o conselho de Biden.
Outra coisa que sabemos com certeza é que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, está sob grande pressão.
Ao contrário dos chefes militares e de segurança de Israel, ele não aceitou qualquer responsabilidade pessoal pela série catastrófica de falhas que deixaram as comunidades na fronteira de Israel com Gaza praticamente indefesas em 7 de outubro.
No último domingo, 29 de outubro, ele causou alvoroço ao culpar as agências de inteligência pelas falhas em uma publicação no X (antigo Twitter). Netanyahu apagou a mensagem logo depois, e pediu desculpas.
Três israelenses, um ex-negociador de paz, o ex-chefe do Shin Bet (agência de inteligência interna de Israel) e um empresário de tecnologia escreveram um artigo na revista Foreign Affairs dizendo que "Netanyahu não deveria participar da guerra."
O primeiro-ministro tem apoiadores leais, mas perdeu a confiança de figuras proeminentes do sistema militar e de segurança de Israel.
Noam Tibon, o general reformado que abriu caminho para o kibutz Nahal Oz para resgatar a sua família, compara Netanyahu a Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que foi forçado a se demitir em 1940 e acabou substituído por Winston Churchill.
"Este é o maior fracasso na história do Estado de Israel. Foi um fracasso militar. Foi um fracasso de inteligência. E foi o fracasso do governo... Aquele que realmente está no comando - e toda a culpa está com ele - é o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu... Ele é responsável pelo maior fracasso da história de Israel", disse Tibon.
Também está claro que o antigo status quo da região foi destruído. Era desagradável e perigoso, mas parecia existir uma certa estabilidade familiar.
Desde o fim da última revolta palestina, em 2005, surgiu um padrão que Netanyahu acreditava poder ser sustentado indefinidamente. Era uma ilusão perigosa para todos os envolvidos.
O argumento era que os palestinos não eram mais uma ameaça para Israel. Em vez disso, eles eram um "problema a ser gerenciado". As ferramentas disponíveis incluem a antiga tática de "dividir para governar".
Netanyahu, que foi primeiro-ministro durante a maior parte do tempo desde 2009 - depois de um período anterior entre 1996 e 1999 - tem defendido consistentemente que Israel não tem um parceiro para a paz.
Potencialmente, sim. A Autoridade Palestina(AP), que é o principal rival do Hamas, é uma organização profundamente falha, e muitos dos que a apoiam acreditam que o seu presidente, Mahmoud Abbas, precisa se afastar do cargo. Mas ele aceitou a ideia de estabelecer um Estado palestino ao lado de Israel na década de 1990.
"Dividir para governar" para Netanyahu significava permitir que o Hamas construísse o seu poder em Gaza para enfraquecer a Autoridade Palestina.
Embora o primeiro-ministro mais antigo de Israel seja sempre cuidadoso com o que diz em público, as suas ações ao longo de muitos anos mostram que ele não quer permitir que os palestinos tenham um Estado independente.
Isso implicaria ceder terras na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, que a direita de Israel acredita pertencer aos judeus.
De tempos em tempos, algumas posições de Netanyahu vazaram à imprensa.
Em 2019, várias fontes israelenses afirmaram que ele disse a um grupo de membros do Parlamento do Likud, seu partido, que, se eles se opusessem a um Estado palestino, deveriam apoiar esquemas para injetar dinheiro - principalmente fornecido pelo Qatar - em Gaza.
Ele teria dito que o aprofundamento da divisão entre o Hamas em Gaza e a Autoridade Palestina na Cisjordânia tornaria impossível a criação de um Estado independente.
É também claro que Israel, apoiado pelos Estados Unidos, não vai tolerar um acordo que permita ao Hamas permanecer no poder. Isso garante muito mais derramamento de sangue. Também há grandes dúvidas, que até agora não foram respondidas, sobre quem poderia substituir o grupo.
O conflito entre árabes e judeus pelo controle das terras entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo já dura mais de 100 anos. Uma lição dessa longa e sangrenta história é que nunca haverá uma solução militar.
Na década de 1990, o processo de paz de Oslo foi estabelecido para tentar pôr fim ao conflito por meio do estabelecimento de um Estado palestino com a capital em Jerusalém Oriental, ao lado de Israel.
A última tentativa de reanimar o acordo, após anos de negociações intermitentes, aconteceu durante a administração Barack Obama. Mas o processo falhou há uma década e, desde então, o conflito só se agravou.
Como disseram o presidente Biden e muitos outros, a única hipótese possível de evitar mais guerras é estabelecer um Estado palestino ao lado de Israel. Mas isso não será possível com os atuais líderes de nenhum dos lados.
Os extremistas, tanto israelenses como palestinos, farão tudo o que puderem para destruir a ideia, como têm feito desde a década de 1990. Alguns deles acreditam que estão seguindo a vontade de Deus, o que torna impossível persuadi-los a aceitar um compromisso secular.
Mas se esta guerra não causar um choque suficiente para quebrar preconceitos profundamente arraigados e tornar viável a ideia de dois Estados, nada o fará.
E sem uma forma mutuamente aceitável de pôr fim ao conflito, mais gerações de palestinos e israelenses serão condenadas a mais guerras.